Dores Sem Voz

Paula Freire, opinião
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Ela sabe ser apenas um caso entre o silêncio de tantas centenas.

O medo suspenso no corpo, pronto a esconder-se não sabe onde.

Os dias a queimá-la tal e qual fogo, numa corrida a favor de um tempo onde descobriu como a felicidade pode ser tão imperfeita.

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Sozinha, num canto qualquer da vida, para onde se atira à espera que um milagre a venha visitar sem anúncio prévio.

Talvez quando conseguir que o olhar lhe adormeça mais distraído. Porque agora, mesmo no limite do cansaço, precisa dos olhos demasiado acesos. Por ela e pelos filhos.

Pelo risco e coragem para fugir a essa paixão de um dia, que ela sonhou amor e hoje lhe sangra a alma. Um casamento transformado em pancada, onde aprendeu a andar descalça para não acordar aquele ódio que não lhe compreendia.

Dores Sem VozA pele, lavou-a já muitas vezes debaixo da água fria, enquanto por dentro grita, para se ouvir, a vontade de não sucumbir. Ainda não desta vez. Por ela e pelos filhos.

Mas e as cicatrizes que a vestem por dentro? Como cuidar para que a dor doa menos?

Como encontrar de novo o seu próprio perfume? Todos os nomes têm um perfume, mas o dela tornou-se inodoro. Sente-se tão vazia de cheiro como de vida. Qualquer insulto, qualquer ofensa lhe cabe. Mesmo que se esqueça de os aceitar, entram e por lá ficam a morar.

Perdeu o rasto do seu reflexo no espelho mas, se voltar a olhar-se de novo, sabe o que vai encontrar. O rosto invisível de uma ausência sem história.

Foge das humilhações e das vergonhas para os braços da solidão e acredita que, se o silêncio a deixar ainda mais invisível, talvez os dedos da noite a escondam do seu pesadelo. Para ser só mais um pouco.

Por ela e pelos filhos.

Todas as dores têm um nome. A dela, não tem sequer voz.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.