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Em Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, Jaime Cortesão relaciona tipos de urbanismo com factores geográficos, explicando que «no Sul, a pluviosidade escassa e a concentração da água necessitavam o agrupamento de uma população menos numerosa em vilas e cidades distantes umas das outras, bem como a formação de latifúndios.»

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“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

A dificuldade das relações entre os grupos, que no norte eram causadas pelo relevo orográfico e a abundância de vales fluviais paralelos, já para lá do Tejo, ou Alentejo, com menos vales fluviais e extensa planície, permite muito mais facilmente, entre os grupos, ainda que afastados, uma comunicação devido ao que o autor considera «uma imensa estrada geográfica». Embora admita terem sido os Romanos com as suas vias militares a proporcionarem esta rede.

A sensação que temos, ao entrar no Alentejo, é de extensão e vastidão, praticamente não são necessárias auto-estradas, as estradas funcionam como tal e são como que privativas. Em determinadas zonas é quase surpreendente o aparecimento de um carro, e dois já é motivo de grande espanto. O tempo que se leva no norte e centro para ir de um ponto ao outro é aqui quase reduzido a metade, pela ausência de obstáculos. Quilómetros e quilómetros sem se avistar uma cidade, uma vila ou mesmo um monte. É o melhor local para se aprender a estar só e a relativizar o espaço e o tempo, que um sem o outro não existem. O célebre “é já ali” com que se ironiza sobre a capacidade de os alentejanos avaliarem as distâncias (o “é já ali” pode corresponder a vinte, trinta quilómetros ou mais) deu origem a dezenas de anedotas. Assim como relativizam a distância, os alentejanos relativizam-se a si próprios. Não sei de outro povo que, com tanta elegância, ironize sobre si mesmo, o que é sinal de grandeza. Não conheço nada mais próximo do amor que o humor. As melhores e mais bem contadas anedotas de alentejanos são as que são contadas pelos próprios. E têm um delicioso sabor zen que as torna, apesar de tão locais, quase universais. Os alentejanos, embora tenham uma grande noção de dignidade, não se levam excessivamente a sério. Comportam-se como senhores que tendo uma nobreza natural não necessitam de se pôr em bicos de pés. Isto cria uma «imensa estrada geográfica» interna, são grandes por dentro, à semelhança da terra onde vivem e nasceram, criaram uma configuração interna mimética do espaço exterior, lá fora é tudo muito perto, «é já ali», porque são tão “grandes” que chegam facilmente a todos os lugares e toda a extensão lhes parece curta. Como Sá de Miranda cantou no seu belo poema “O Sol é grande”, também aqui o é, tal como o solo. E o tempo é longo, o espaço é longo, o falar e o cantar são cantados e arrastados, mas a alma voa de terra em terra, de cidade em cidade, não há grandes obstáculos, apenas há que caminhar, essa extraordinária forma de meditar. Voa como as águias, o alentejano. E enquanto vai caminhando no seu voar, de repente “é já ali” e já se está lá. Onde sempre se esteve. Afinal, o espaço é uma ilusão da linearidade, o tempo também, e o alentejano sempre o soube com todas as suas células.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.