Eça no Alentejo

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Nesta minha viagem pela vida, a literatura tem sido, sempre, um misto de cinto de segurança, mapa do caminho, livro de cabeceira, Bíblia, repouso, consolo, inspiração e exaltação. Uma espécie de companheira de caminhada que vai fazendo o caminho comigo: eu na estrada, ela na berma, onde por vezes descanso, onde me reoriento, onde faço o balanço do que já percorri. Por isso, não admira que na minha recente viagem-relâmpago ao Alentejo, a minha peregrinação anual possível, novamente seja um livro, desta vez de Eça, paradoxalmente A Cidade e as Serras, que vem pontuar um momento de puro êxtase que coincidiu com a hora do almoço, eu que não sou particularmente viciada em gastronomia, excepto nos aspectos que a ligam à cultura e a diferenciam de todas as outras. Apesar de o Alentejo não ter propriamente a ver com as Serras de Tormes do Jacinto, a personagem de Eça, tem ainda a autenticidade de uma gastronomia que me faz ter saudades de Portugal quando ando pelo estrangeiro. Assim, há muito tempo que não entrava no restaurante Pompílio, na terra onde nasci, onde me habituei, nos anos recentes, a ver espanhóis fazerem fila para serem atendidos. Desta vez precisava de almoçar no Pompílio como se fosse a casa das minhas avós, elas que já não se encontram deste lado do mundo, aquelas casas onde havia o aroma de coentros. Não estando presentes as minhas avós, tenho ainda assim a sorte de recordar os seus sabores. Outros lugares haverá, hei-de voltar e experimentá-los, mas este é o mais central, está situado mesmo ao lado da fonte construída um ano depois de o meu pai nascer, três anos antes de a minha mãe nascer, e traz-me muitas memórias, apesar de, segundo penso e consigo recordar-me, ainda não existir o restaurante, nem sequer o café, quando eu era menina, mas havia ali uma pequena loja, no mesmo sítio ou muito perto, onde a minha avó me comprava gelados caseiros de gelo, os únicos que na altura existiam. Seja como for, esta casa é já muito antiga, segundo apurei com mais de quarenta anos, e já possui memória, tradição e fama.

Da última ou de uma das últimas vezes que lá estive ainda ali se encontrava a senhora Pompílio, que desta vez não vi, e o senhor Pompílio, mostrando alguma fragilidade. Foi por volta de 2013 ou 2014, ou pouco mais… não tive coragem de perguntar aos filhos o que aconteceu entretanto…

Restaurante Pompilio - São Vicente, ElvasMas os sabores, esses permanecem os mesmos de sempre. Esta quase vegetariana, perante uma sopa de tomate com acompanhamento de farinheira e chouriço de pimentão, recua vertiginosamente várias décadas, e saboreia como quando a culpa e a compaixão estavam arredadas da mesa da refeição. Sabor e inocência em estado puro. Não ingeri matéria sacrificada, ingeri memória e mastiguei um tempo de amor puro. Tal como a carne a acompanhar as maravilhosas migas de espargos, iguais às que o meu pai gostava de cozinhar. E a sericaia e as ameixas, mas antes, o grão, as azeitonas, tudo tão bem temperado como por mão de avó. Um momento de refeição pode ser alegria plena, memória reconstruída da inocência perdida. Percebe-se por que razão está sempre lotado e foi uma sorte conseguirmos ser atendidos sem termos feito marcação. Não fui à cozinha do restaurante, mas tenho a certeza de que é muito mais do que isso, é um laboratório alquímico cheio de retortas e destiladores, instrumentos de decantação, fornalhas, sal e enxofre e tudo o que é necessário para o exercício da espagíria.

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A Cidade e as Serras - Eça de QueirozNão deixo de pensar no fabuloso Eça, quando, em A Cidade e as Serras, em cena que decorre num Portugal mais acima, mas igualmente autêntico, descreve o êxtase de um inicialmente desconfiado Jacinto, recém-chegado da civilização, de Paris e seus requintes:

«Jacinto […] esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fosca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou – e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto. – Está bom!

Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.

— Também lá volto! – exclamava Jacinto com uma convicção imensa. – É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta esperando a portadora dos pitéus […]».

Fonte - São Vicente, ElvasAssim me senti, uma espécie de Jacinto não em Tormes, mas em S. Vicente, eu que embora aprecie os sabores, não tenho, geralmente, fome, nesse dia sentia uma fome rara em mim, uma urgência de comer. Há anos que não a sentia. Não precisei de me encher para me satisfazer, eram sobretudo os odores que me saciavam, as imagens das iguarias antigas, mais o sabor que conservava na boca para melhor apreciar cada garfada. Era uma fome parecida com saudade, a saudade é uma fome de memórias antigas, felizmente a saudade gastronómica pode resolver-se com a facilidade que outro tipo de saudade não possui.

Parabéns ao restaurante Pompílio e ao serviço social que exerce, na preservação dos sabores e odores do amor dos nossos pais, avós, bisavós, tetravós e outros ainda mais antigos. Preciosa missão!

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.