Einstein e o meu Avô

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Tive a sorte de conviver com quatro avós e uma bisavó. Volto a falar deste avô José, como anteriormente já mencionei o outro, Miguel. Os meus avós, eles e elas, são uma fonte inesgotável de inspiração. Num cartão de visita que só encontrei depois da partida de José Francisco Pinto, mandou imprimir, sob o seu nome: “Aprendiz de filósofo”. Nunca um título assentou tão bem a ninguém. Muitos que nem aprendizes são, intitulam-se filósofos, doutores, professores, e por aí fora.

Apenas com a instrução primária, mas autodidacta como nunca conheci ninguém, lia e estudava, encomendava cursos, comprava livros, meditava, pensava, partilhava as suas descobertas e as suas dúvidas. Fazia-o com os adultos que encontrava, se interessados no conhecimento, mas também com uma criança como eu. Conversava comigo como se eu fosse grande. Tinha cadernos e blocos com as suas notas e apontamentos sobre tudo: ciências, geografia, electricidade, psicologia, política, literatura… Tudo isto, ao mesmo tempo que erguia casas para si e para seus filhos, fazia pão na padaria familiar e cuidava das searas. Dizia-se ateu, mas cantava ao Menino na noite de Natal; vivia desafogadamente como resultado do seu trabalho, mas ajudava todos os que necessitavam; não acreditava numa divindade, apenas na Natureza, mas depois da partida da minha avó, já com idade relativamente avançada, andava a ler livros sobre Budismo e ia a reuniões de protestantes porque gostava de ver o espírito de solidariedade entre eles; era contra Salazar, chegou a colar cartazes da oposição e a ter a casa inspeccionada, mas nas reuniões que promovia no seu lar, para estudo, não era permitido falar de política nem falar mal de ninguém. Acho que já falei disto aqui, mas hoje voltei a ter vontade de voltar ao assunto depois de ler uma passagem de Einstein:

Einsstein«O que um homem pode experimentar de mais belo e mais profundo, é o sentido de mistério. É o princípio que sustém a religião e toda a manifestação artística e científica séria. Aquele que não experimentou isto, se não estiver morto, está pelo menos cego. Saber que por detrás de cada experiência de vida, há algo que escapa ao nosso entendimento…».

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Era este sentimento que acompanhava o meu avô. A ânsia de saber, o querer descortinar para lá do mistério, mesmo negando-o. Respeitá-lo, mesmo não lhe reconhecendo existência. Procurá-lo, ainda que não acreditando nele. É que afinal, como dizem aqueles que ali foram seus vizinhos de fronteira: “… pero que las hay, las hay…”. Por isso, hoje, há tantos anos ausente, não só o sinto vivo, como consigo ver os seus olhos bem abertos para a realidade onde se encontrar, que imagino longe de Salazar.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.