Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Elvas e Tomar tinham já para mim algo em comum, mas o conhecimento da vida de Jácome Ratton, aproximou-as ainda mais na minha biografia sentimental. Passo a explicar.

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Não sei se Jácome Ratton é tão conhecido em Elvas como em Tomar, onde desde 1884 existe uma escola com o seu nome e sob a sua inspiração.

Elvas é a cidade mais próxima da aldeia onde nasci, S. Vicente e Ventosa, e Tomar é a cidade mais próxima da vila e sede de concelho para onde os meus pais foram viver, e eu com eles, quando tinha dez anos. Jácome veio para Portugal aos onze. Foi um salto maior, com um país pelo meio e uma língua diferente.

Jácome Ratton é, como já se percebeu, o outro ponto em comum entre as duas cidades.

Já falei nele num jornal da região, o “Despertar do Zêzere”, em crónica de que transcrevo aqui uma pequena parte:

«o cidadão luso-francês Jácome Raton nascido em 1736 em França e mais tarde naturalizado português, veio para Lisboa aos 11 anos, com os pais. Um tio tinha, no Porto, uma actividade mercantil, e o menino, depois de crescer, ligou-se a projectos de fábricas, como tinturaria, chitas, papel e chapelaria, bem como exploração de salinas e plantação de árvores exóticas (as araucárias, minhas amigas de infância, e para sempre, foi ele quem as trouxe).

Foi também ele que, com outro francês, fundou em 1789 uma fábrica de fiação de algodão em Tomar, a primeira a usar uma máquina a vapor. A sua imensa obra foi reconhecida no país, que o tornou deputado da Junta do Comércio, fidalgo cavaleiro da Casa Real e Cavaleiro da Ordem de Cristo. Publicou as suas memórias «para informaçoens de seus próprios filhos. O célebre Palácio Ratton, em Lisboa, sede do tribunal constitucional, era propriedade sua».

Está apresentado. Posto isto, vamos aos detalhes, que na maioria das vezes fazem toda a diferença. Com uma fábrica de chapéus e amoreiras à mistura. As amoreiras, cerca de 12.000 pés, mandou ele plantá-las numa sua propriedade em Pancas, perto de Alcochete. Ora em São Vicente, no largo principal, junto da estrada que atravessa a aldeia, ao pé da fonte e dos Pompílios, existe ainda, pelo menos, uma amoreira que, quando a minha mãe ainda tinha memória e capacidade suficientes para narrar acontecimentos, contou ter sido plantada, juntamente com outras, pelas meninas da escola de que ela fazia parte. Esta pequena plantação de que, creio, só resta uma, tem para mim a importância de um latifúndio de amoreiras. O que tem tudo a ver com os chapéus. Hoje, quando nos infantários os meninos cuidam de bichos-da-seda e lhes dão, como alimento, folhas de amoreira, não imaginam como esta árvore já foi importante para a criação de chapéus.

Nas partes das memórias de Jácome Ratton a que tive acesso, não encontrei referências à Fábrica de Chapéus finos de Elvas, uma indústria oficinal e manufactureira de chapéus de feltro de pelo ou de pelo de seda, mas várias fontes afirmam a sua existência, em Elvas como em Lisboa. O aqueduto das Amoreiras talvez não seja alheio a este assunto. Pouco mais consegui apurar, à excepção de, numa página electrónica intitulada Almanaque Alentejano, dirigida por Luís Jordão, um artigo de Rui Rosado Vieira debruçando-se sobre um interessantíssimo relatório espanhol de 1769, solicitado ao economista do país irmão Fernando Costas Castillo, pelo governo de Madrid, sobre o estado das relações económicas com Portugal, onde é dito, nomeadamente: «Elvas, sede de uma indústria artesã diversificada, da qual sobressaíam os doces, vê nascer, em 1771, uma fábrica de chapéus finos, mandada fundar pelo conhecido industrial Jácome Rattom, cuja direcção foi entregue a um francês de nome J. Batista Alexis». O especialista espanhol refere ainda, e as palavras são do articulista «a produção de seda que, até há pouco tempo era excedentária no seu país e, por isso, exportada para Portugal. Acrescentando, contudo, que dado o incremento da plantação de amoreiras em solo português, a situação encontrava-se em vias de se inverter. A confirmar a sua asserção regista que só em Estremoz, no ano de 1768, foram plantadas 120 amoreiras». Vale a pena voltar a este relatório.

Amoreira, São VicenteFinalmente, soube que no início do século XIX já alguns fabricantes de chapéus finos, como os de Elvas, se encontravam em crise, devido à conjuntura política e económica, agravada pelos impostos a pagar pelos proprietários das fábricas e pela concorrência causada pela proliferação de produtores.

No decurso desta pesquisa deparei-me com as memórias de Jácome Ratton onde, lucidamente, põe o dedo nas feridas que se vêm arrastando sabe-se lá desde quando, que ele no seu tempo também conheceu e hoje continuamos sem cicatrização à vista. Fica igualmente muito claro de que modo a “escolha” das pessoas pode determinar o sucesso ou o insucesso de uma empresa pública:

«A prosperidade da fábrica de Alcobaça depois de passar a mãos de particulares, e a decadência da Real fábrica das sedas, e quanto com a mesma perdia a Real Fazenda com uma dispendiosa administração de pessoas estranhas, e totalmente ignorantes da matéria, e da arte, me excitaram a propor ao Marquês de Ponte de Lima quanto seria vantajoso à Real Fazenda, e ao público, se aquela fábrica passasse também a mãos de proprietários práticos na matéria; e estive a ponto de convencionar esta transacção com João António Lopes Fernandes, e sócios, capitalistas, e práticos deste ramo de comércio, com o qual se tinham já enriquecido em Bragança. Mas quando afinal dei parte ao Marquês do estado a que eu tinha levado este negócio, o achei assaz entediado; talvez pela influência de alguns dos Directores, a quem muito convinha aquela administração, perdesse, ou não perdesse a Fazenda Real, não só pelos ordenados que dali percebiam, mas também pelas dependências, além das satisfações e Empenhos: palavra que em Português significa muito; pois que por ele se consegue quase sempre voltar as coisas ilícitas em lícitas, e as justas em injustas, seja em detrimento de particulares, ou do Estado, como bem se prova por inumeráveis factos.»

Daí, que noutra parte destas esclarecedoras e deliciosas memórias expresse, com toda a justeza, o seguinte desejo:

«E praza a Deus que a palavra empenho esqueça no novo dicionário da língua Portuguesa.»

Não aconteceu e não me parece que venha a suceder tão depressa.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.