Elvas, Comemorações do 14 Janeiro /Arquivo
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Solarenga, a manhã trouxe à Praça da República a nostalgia da cidade castrense.

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Passada mais de uma década sobre o encerramento do último dos quartéis, Elvas continua militar. Lê-se no olhar emocionado dos mais velhos ante a solenidade do hino nacional entoado a preceito pela banda do exército, como tantas outras vezes no passado.

Sente-se nas memórias ainda vivas, quando a cidade albergava centenas de militares, magalas que catrapiscavam as moças casadoiras, graduados que movimentavam a vida económica e social do burgo. Invadem-nos as memórias dos carros militares, em instrução, nas ruas e avenidas da cidade, as enchentes do juramento bandeira que traziam cor a restaurantes e cafés – dias de festa.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

A cada 14 de Janeiro relembramos os heróis das Linhas de Elvas, garante indiscutível da independência nacional, valentes militares e civis que resistiram ao cerco, à peste, à pressão do inimigo, mas evocamos também a identidade de uma cidade que lhe foi roubada para lhe ser restituída.

Ironicamente a UNESCO devolveu-nos a consciência que a reorganização do exército português nos tinha retirado. Elvas é militar, ponto. Foi-o desde a sua fundação, não o é há meia dúzia de anos, mas continua a sê-lo, quanto mais não seja a cada feriado municipal.

Abrem-se sorrisos ao ver as forças em parada, os cavalos a desfilar, a corneta a marcar o compasso.

Sabe a pouco, quereríamos mais. Fica-nos a vontade.

As comemorações deste ano não trouxeram novidades, serviram para nos matar saudades da Elvas militar.

O domingo garantiu a presença de público em bom número, o que talvez não se verifique em edições futuras, com a chegada dos dias de semana.

Soube-me a pouco, apesar de tudo. Fica-me a sensação de que mais poderia ser feito, envolvendo os elvenses e atraindo os visitantes sem para isso gastar muito. Falta uma recriação histórica da efeméride que nos faça compreende-la melhor e sentirmo-nos parte integrante. Outros fazem-no, e com sucesso. Não se inventa nada, basta um pouco de atenção. Já o Lavoisier dizia, “nada se cria, tudo se transforma”.

Refiro-me à recriação levada a cabo, anualmente, na pequena localidade extremenha de Albuera. Organizada para comemorar a batalha com o mesmo nome, onde as tropas anglo-lusas derrotaram os invasores franceses, a recriação convida toda a população a vestir-se a rigor e ser parte integrante da efeméride. A tradição tem vindo a ganhar raízes e são muitos os que, todos os anos, se deslocam para participar e reviver o acontecimento.

E nós por cá?

Igreja de Santo Amaro, no Sítio dos Murtais, Elvas

O sitio dos Murtais está lá, esquecido durante trezentos e sessenta e quatro dias, vivendo um dia de glória por ano. Os elvenses também estão cá, a meia dúzia de quilómetros de centenas de milhares de extremenhos ávidos deste tipo de iniciativas.

Não tenho dúvidas que poderia correr bem, assim se reconheça interesse e se aposte.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.