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Elvas salvaguarda as suas tradições

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Romeiros de Vila Boim
Desfile de carros de canudo, dos Romeiros de Vila Boim, a caminho do Santuário do Senhor da Piedade / Arquivo
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Orgulho-me da minha cidade e tudo farei para elevar mais alto o seu nome e levá-lo até onde me for possível.

Desde criança me recordo ser uma alegria enorme ir à cidade. Não seria por acaso que se vivia tal sentimento.

No meu tempo de criança pouco se viajava. Lembro-me, como se fosse hoje, a primeira vez que estive na cidade – o dia do meu exame de admissão à Escola Industrial e Comercial de Elvas, há sessenta anos.

Antes dessa ocasião, apenas íamos a Elvas uma vez por ano, no São Mateus e, nem sempre.

Somente quando as colheitas eram um pouco melhores e havia alguns tostões disponíveis. Era um entusiasmo que não nos deixava sossegados.

O meu pai preparava a carroça e a mula e lá íamos nós, sentadinhos em cadeirinhas baixinhas, bem encostadinhos uns aos outros, ao anoitecer, para vermos o arraial e visitarmos a Igreja do Senhor Jesus da Piedade quando não estava apinhado de forasteiros a cumprirem as suas promessas por graças obtidas.

As noites, bastante frescas de setembro, convidavam-nos a beber um chocolate quente com brinhol ou uma cevadinha acompanhada com biscoito que levávamos de casa.

“Canto a minha terra, a minha gente ! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

E lá voltávamos à nossa Aldeia sem pormos o pé na cidade. Da cidade só víamos os Arcos da Amoreira, pois nem Castelo nem Forte da Graça se descortinavam na escuridão da noite. Nesse tempo os monumentos não eram iluminados e as estradas, tão pouco.

Portanto, nunca assisti à célebre procissão dos Pendões. Isso era mais para as pessoas da cidade. Os aldeões contentavam-se com a visita à Igreja, com os bailaricos a toque de concertina ou gaita de beiços, os carroceis, o poço da morte e os baloiços.

Boas recordações envoltas em ondas de saudade dos que já partiram e traziam dos seus antepassados este mesmo sentimento de preservar as tradições e transmiti-las às gerações vindouras.

Das lembranças que guardo de Elvas há algumas que poderei aqui expressar:

Elvas sempre foi uma cidade limpa, uma cidade ordeira, caraterísticas também de todas as aldeias e vilas do concelho que bem conheço. Criança ainda, percorria as suas ruas sem medos e admirando sempre a sua imponência.

No presente, e graças a iniciativas dignas de todo o louvor, Elvas é mais conhecida por ter sido classificada como Património Mundial.

Todos têm o dever moral de a manter limpa e segura para daí virem proveitos relacionados com novos visitantes, tanto nacionais como estrangeiros.

É natural que o crescimento da cidade lhe tenha trazido alguns dissabores que, com ordem e inteligência, deve procurar resolver.

Contudo, no meu entender, os problemas «caseiros» devem ser resolvidos a bem, entre os que estão interessados no progresso e no civismo da comunidade e nunca na praça pública, passando para o exterior receios exacerbados que em nada beneficiam o futuro da cidade.

Elvas merece ser bem tratada!

As gerações futuras precisam encontrar dentro ou fora das muralhas, alegria de viver, trabalho, conforto e vontade de manter o legado dos seus antepassados, associado a boas condições de higiene e segurança que garantam a vinda de turistas que dinamizarão todos os setores da economia local e, consequentemente, um melhor nível de vida dos Elvenses.

Vésperas de São Mateus, a todos desejo que se divirtam, esqueçam as divergências porque, afinal, como diz o poeta: «é mais o que nos une do que aquilo que nos separa» !

Bom São Mateus!

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