Início Opinião João Cabrita Em Elvas …para celebrar

Em Elvas …para celebrar

Vieram de longe. Quase todos. Os de Elvas escasseiam. Vá se lá saber porquê!? Diríamos: só faz falta quem cá está.

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©António Matos
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O Sol radioso apareceu a afagar-nos o afecto e por lá andámos todo o dia. Elvas, espaço de eleição, não tivesse sido a cidade o local ameno das nossas juventudes. E aqui regressámos mais uma vez.

Muitos já não tinham dedos para contar anos de ausência. Exercícios de memória aconchegaram corações que fizeram das fraquezas forças e mostraram toda a fortaleza através da palavra transpirada. Depois, os referentes que coincidiam: professores que nos abriram para o mundo, matérias que fomos sublimando, amores que se perpetuaram, a par de outros que feneceram e a alegria nos olhos a dar lastro à nossa vida.

Dia de encontro, de caras novas a marcar presença pela vez primeira. Curiosos, de peito aberto para o que desse e viesse. Abraços que se vão repetindo. Perguntas que nunca acabam. É assim a ritualidade da festa num rosário de palavras e de gestos que não findam, lembrando os que nos pertenceram.

©António Matos

Somos contos contando contos. Lemos algures, em Ricardo Reis, cadáveres adiados que procriam. Não falemos em defuntos. Louvemo-los e cantemos com os vivos, o hino da vida para que possamos celebrar em bem mais um ano de existência em amena conversa.

Vieram de longe. Quase todos. Os de Elvas escasseiam. Vá se lá saber porquê!? Diríamos: só faz falta quem cá está. Em tempos de confraternização não nos debrucemos sobre os mistérios insondáveis da existência, da ausência e do ostracismo…

Fotografias para, depois, recordar e comentar, engalanaram o encontro. E assim vamos desfiando o passado tão perto e tão distante. Gerações grisalhas que a beleza transmudou. O Carpe diem a convidar-nos ao prazer do momento que irreversível vai alimentar o nosso viver.

De Elvas, brotam as nossas histórias. Daqui partimos, e hoje estamos regressados. Naquele tempo, com sonhos a borbotar e objectivos a germinar, era preciso sair para sermos maiores, mais adultos. O país esperava-nos e nós respondemos. Passámos pela guerra nas colónias. Meu Deus! Onde isto já vai! Eram épocas diferentes, esfumados, mas não desaparecidos.

Hoje, na amenidade de um país à beira-mar plantado, à sombra de um aqueduto que afirma que aqui é Elvas cidade, de muralhas cercada, ansiosa por entrar no ciclo da modernidade, homens e mulheres convivem, tuteando-se, com a vida a manifestar-se em tons de colorido, com o céu alentejano a abençoar-nos.

À roda da mesa saboreámos o que o Alentejo proporciona. Ouvimos a alegria da voz de gente moçoila, mesclada de experiência, em cantares da sua terra. Da poesia, também escutámos, o que um de nós, um dia escreveu, Turbulências, titulou ele. Ficámos felizes por tudo.

Prometemos voltar. Obsequiámo-nos, oferecendo a nossa aproximação, a dádiva do nosso ser. E é tão bom repetir o desejo de estar com quem gosta de nós! Viemos comemorar.

    Memorar. Trazer à memória o que nos fez gente de bem, com defeitos e virtudes, que correu mundo para ser melhor. E melhores nos sentimos quando um amigo nos recorda.

Elvas, cidade da nossa infância, viu-nos crescer, formatou-nos na dimensão necessária para o voo da vida. E nós voámos, voámos para aqui chegarmos e voltarmos a respirar a felicidade que todos auguramos.

Celebrando a vida, voltaremos até que o ânimo nos permita

Até breve, num amplexo que não termina.

                                              João Cabrita

Nota: O autor não segue o acordo ortográfico.

João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo

João Cabrita
É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, Mestre em Didáctica da Língua e Literatura Portuguesas, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Doutorado em Filologia Portuguesa pela Universidade de Salamanca. Algarvio, residente em Trás-os-Montes, é docente.
Autor de “O Liceu Nacional de Bragança e o seu Patrono, uma história por contar”, “Paulo Quintela, um ilustre reconhecido ” e “Cem Anos do Clube de Bragança, no Centenário da República”.

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