Início Opinião João Cabrita Encontro de antigos alunos da Escola Secundária em Maio de 2017

Encontro de antigos alunos da Escola Secundária em Maio de 2017

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O visitante vem por aí abaixo. Das dificuldades de antanho, agora todos os caminhos vão lá ter. A distância já não se mede em quilómetros. O desejo, a vontade e o querer diminuem a extensão. A velocidade, nossa companheira, prega-nos rasteiras. Ter cautela está para aquém do nosso entusiasmo. É preciso chegar. Estar lá quanto antes. Como se fôssemos o cão de Pavlov a saliva faz crescendo, imaginando no palato os pratos conhecidos. O Alentejo tem este sortilégio. A gastronomia é diferente. Portugal é, sem dúvida, um caleidoscópio de iguarias. Cada lugar o seu paladar, o seu aroma, o seu perfume. Carne e peixe à boa maneira do Alentejo suscitam a saudade e o desejo de regressar.

A viatura que nos transporta, conduz-nos de uma quase tirada ao local combinado. Antes, Portalegre é já ali. O Alentejo que conhecemos conduz-nos a Elvas, cidade património mundial da humanidade. O Forte da Graça tem nova cara. Mãos dedicadas e espíritos empreendedores fizeram-no local de eleição. Outrora Casa de Penas, furto o eufemismo ao Roque, por lá gente que povoou a ficção de José Cardoso Pires na Balada da Praia dos Cães.

O Aqueduto da Amoreira é já ali. A viagem não cansou. O visitante sente-se confortável. O viaduto abre o livro da história da cidade. O Hospital Militar transformado em Hotel São João de Deus, curandeiro-milagreiro, patrónimo de unidade hoteleira de quartos aprazíveis, de ambiente acolhedor, convidando a longas estadas.

Elvas assedia. Ruas limpas e o visitante que às letras é dado, percorre caminhos já vividos. Exuma lugares e momentos. A memória exulta, activando-se. A cidade está diferente. Procuram-se espaços conhecidos. Nada se perde. Tudo se transforma.

A cidade está pejada de escolares, paradoxalmente, não se vêem livrarias.

A Rua da Cadeia é outra. O Hotel Alentejo está transformado em residência de escolares. A cidade está pejada de escolares, paradoxalmente, não se vêem livrarias. Vale a pena perguntar: não se vendem livros em Elvas? Em tempos da Escola, no Largo do Colégio, existiam quatro livrarias: Rego, Lusa, Carrilho e São Pedro, se a memória não me falha. Quem as substituiu? O visitante é, na generalidade, crítico em relação ao que vê. Uma espécie de intruso, que aprecia ao sabor do percurso.

Desconhece o Hissope, mas proporciona-nos uma fotocópia divulgada pelo pároco

Pergunto pela Praça D. Sancho II. Dizem-me que está fora das muralhas. Praça forte conquistada por D. Sancho II em 1226, viu-se arredada do nome que lhe pertencia. Chama-se agora Praça da República. E a Sé, hoje Igreja de Nossa Senhora da Assunção lá está. Altaneira. Linda. Bem conservada. O órgão recuperado. Aberto ao público com entrada gratuita. A senhora que me atende, simpática, atenciosa. Desconhece o Hissope, mas proporciona-nos uma fotocópia divulgada pelo pároco. Monumento nacional desde 1910, lembra as cerimónias religiosas em tempos de estudante. Os olhos extasiam-se perante tamanha beleza. Prometemos lá voltar. Vale a pena.

Na Praça D. Sancho II, desculpem, na República, o parque de estacionamento onde os carros parecem não abundar, circunda a Casa da Cultura, outrora Casa da Mocidade, onde cabiam os jogos de damas, ping-pong e o aeromodelismo. Nessa altura, o Pinho, aluno do Curso de Formação de Serralheiro, ganhou o título de campeão nacional na sua categoria porque o seu avião voou tanto que desapareceu nos céus de Monsanto.

Quanto à Biblioteca Municipal, inaugurada em 1880, denominada Torres de Carvalho, hoje com mudança de nome, não vale a pena falar, não porque não seja um equipamento de grande valia, mas porque o nome adoptado, não são contas do meu rosário.

E os dias passam com um aroma que não esquece, de terra a saber a outros tempos quentes, de gentes em ruas sufocadas pelo calor. Os olhos iluminam-se pela avidez da curiosidade.

As paisagens a perder de vista ultrapassam as muralhas. Nestas ruas de limpeza sem igual, as árvores parecem espreguiçar-se ao longe e as mondadeiras de antigamente penetram a nossa memória que se abre para tantos dias longínquos.

Há um grito melódico que se desperta. A vida, este vício que nos agrega tomba na memória. Há as casas para recordar, como Cesário Verde, os olhos tropeçam nas ruas que se bifurcam em labirinto. As luzes acenderam-se e a cidade silencia-se repentinamente. O visitante continua no seu périplo. Cartazes anunciam, reivindicando, a capacidade de fazer mais e melhor. Uma certa inveja e o insulto que não escapa.

Património ímpar. Portas fechadas, impedem que o visitemos

Património ímpar. Portas fechadas, impedem que o visitemos, onde gente no Turismo atende delicada e prestimosamente o cosmopolitismo desejoso de conhecer a cidade.

Depois, há o encontro, afinal aquilo que nos movia. A memória exulta e afina-se. Viemos para comemorar e a vida e quebrar a ausência de tantos anos passados. As figuras, hoje, são outras. No rosto sulcam as rugas simbolizando vivências. As vozes estilizam o discurso e cada um a seu modo diz ao que vem e o que viveu. A poesia, também, está de volta, como outrora era celebrada em festas de fim de ano lectivo. Florbela Espanca recorda o amor e todos aplaudem.

Aguçam-se paixões clubistas. A televisão anima os que não abdicam de mostrar o seu fervor. Que se afastem os indiferentes. A vitória tem que soar. Glória aos vencidos, honra aos vencedores.

E os gestos depuram-se na medida das gargantas. As máscaras caíram. Os rostos cobrem-se de alegria. Dão-se abraços pela vitória e pelos momentos vividos.

A vida é também isto. O encontro com o passado. Conversas desprogramadas abrindo a janela a águas fortes da juventude.

A tarde continua mansa. O silêncio é interrompido pelos carros que apitam estridentemente. Não tínhamos vindo para celebrar o sucesso. Chegámos para celebrar o encontro e ganhar lastro para a vida. O passado, o presente e o futuro. Ficava para a história a visita do Papa, a vitória do Benfica e o êxito do Salvador, consolidado na conferência de imprensa. Afinal, Portugal é enorme.

Tudo conjugado tornara-nos felizes. E o visitante com as celebrações a fazerem já parte do passado, lembra Mário de Sá-Carneiro, em Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto
É com saudade de mim

João Cabrita
Não foi adoptado o Novo acordo Ortográfico.

João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo
João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo

João Cabrita
É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, Mestre em Didáctica da Língua e Literatura Portuguesas, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Doutorado em Filologia Portuguesa pela Universidade de Salamanca. Algarvio, residente em Trás-os-Montes, é docente.
Autor de “O Liceu Nacional de Bragança e o seu Patrono, uma história por contar”, “Paulo Quintela, um ilustre reconhecido ” e “Cem Anos do Clube de Bragança, no Centenário da República”.

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