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João Cabrita ofereceu a sua Tese de Doutoramento à Biblioteca da Escola Secundária de Elvas ©Elvasnews
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Somos por natureza seres gregários, Vivemos distantes, procurando a cada momento um pretexto para nos reunirmos. Nada melhor que em volta de uma mesa que nos conduz à confessionalidade de períodos em que vivemos separados.

O tempo inexorável no seu caminhar silencioso não nos vence quando nos encontramos. Estabelecemos aniversariamente o local das nossas memórias. Queremos pisar espaços já vividos. Ruas que serviram de pista às nossas corridas de aceleras, enquanto jovens, e onde estabelecemos alicerces.

Volvido um ano, eis-nos de novo em Elvas. Gente que em Elvas experimentou a ambrosia do Olimpo, voltou a querer chamar a si este espaço que o fez crescer. Desta vez franquearam as portas e a Escola abraçou aqueles que aos livros dedicaram muito do seu tempo.

Não foram muitos, menos que os esperados. Os dissídios provocam estas coisas. Tudo decorreu a contento.

João Cabrita ©Elvasnews
João Cabrita ©Elvasnews

Muita conversa. Muita amizade retomada. E muito tempo recuperado. Gente de muitas vidas vividas, admiraram com agrado e espanto uma escola renovada, cheia de vida e limpa a transmitir prosperidade aos novos alunos. Música quanto baste. Poesia de sentir e pensar. É assim a cultura.

Para trás, os tempos da ginástica num andar alugado, onde o barro transformado em pó impregnava corpos de banhos adiados. O campo de futebol de O Elvas era, então, local para os desportos escolares. Ultrapassadas as dificuldades, os olhos brilhavam-nos perante a estrutura criada para receber alunos que buscam na Escola a melhor forma de crescimento.

Formosa e segura, alardeando grande simpatia e disponibilidade, não dispensando a companhia de uma constipação, a Directora Fátima Pinto, foi-nos mostrando a “sua” escola. Sentimo-la nossa. Com alguns livros de permeio, produto do estro de alguns talentosos, foi dado um pequeno contributo ao acervo da Biblioteca, a lembrar que nos tempos do largo do Colégio, livros na Escola, só os dos alunos. A Biblioteca era uma miragem.

O busto do primeiro director, Amílcar Tucídides da Silva no recreio, a lembrar aquele homem que simbolizava a autoridade, infundido respeito, admiração, cimentados num saber inquestionável. Aulas do meu tempo: Cálculo Comercial, Fisico-Química e Mercadorias. Repreensão recebida, tuteando-me, contra os seus hábitos, deixou-me apreensivo. Redobrei o estudo. Onde isto já lá vai!

Galeria de directores, livros antigos. Jornal O Aqueduto, nome sugerido pelo melhor aluno do meu tempo: João Orlando Travanca Rego, mais tarde licenciado em Filosofia. Amigo de muitos anos, de quem guardo alguns dos seus livros. Soube que foi atribuído o seu nome a um equipamento cultural na sua terra, Vila Boim.

E o tempo a borbulhar, com a saudade e a comemoração de um passado que não alienamos, mesmo os que afirmam que não são saudosistas. E o homem na sua fragilidade volta até ele, celebrando-o. Neste escrever no tempo, lembro Ortega y Gasset citando-o, mais ou menos de memória, em A Rebelião das Massas, livro a que recorro por vezes:

Seria tudo muito fácil se aniquilássemos o passado com um não claro e taxativo, mas, uma vez expulso, ele volta irremediavelmente.

Em forma de conclusão, poderia acrescentar, e se não tivéssemos passado, o que seria de nós e daqueles que amamos?

                                            João Cabrita

De volta a casa, depois de Elvas
29 de Maio de 2016

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