São Vicente - Chaminé
   Publicidade   
   Publicidade   

Cresci antes das antenas e antes das parabólicas. A minha ligação ao céu eram os telhados, os pássaros, os papagaios de papel, as nuvens, a lua, o sol, as estrelas, as árvores e as chaminés. Fui uma criança com sorte. As chaminés do Alentejo estiveram omnipresentes até aos dois anos, e depois, todos os anos seguintes, nas férias grandes, às vezes também no Carnaval ou na Páscoa. Lembro-me de mim nas duas últimas festividades referidas, por três sinais de memória: sapatos pretos de verniz com lacinho, um fatinho amarelo-pintainho e dores de barriga tremendas por causa das amêndoas com recheio que levava para debaixo do travesseiro e ia comendo até adormecer ou, entremeadamente pelo meio do sono, até ao amanhecer.

   Publicidade   
   Publicidade   

Desde muito cedo, foi para mim natural que as casas tivessem chaminés quase da sua dimensão. Mais tarde viria a encantar-me com as chaminés do Algarve, trabalhadas e elegantes, mas as do Alentejo, grandes e sólidas, foram sempre as minhas preferidas. Para além do aspecto estético, há o lado prático, mas também místico. O fumo branco da chaminé do Vaticano parece-me um pálido fio, se comparado com o sólido e generoso fumo que se desprendia destas chaminés hercúleas, a anunciar nascimento de bebés, a presença do reconfortante lume dentro das casas e o perfumado pão nos fornos. Para além de que nelas é muito mais fácil, suponho, a passagem do Menino Jesus na noite de Natal, bem como o trânsito dos anjos nas suas variadas tarefas, tal como a de anunciar às Miriam’s, como a minha mãe foi um dia, a vinda da pequenina Messias que eu fui, e que um bebé anunciado sempre é.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

E já que falamos em judeus, parece que durante a perseguição aos cristãos-novos, as chaminés com seus largos orifícios também terão tido a sua importância, pois proporcionando ampla audição do que se passava na rua, funcionavam como orelha atenta ao menor sinal de perigo e aviso de fuga.

Hoje há antenas e há parabólicas a interferirem na beleza e na passagem dos seres imateriais, mas as chaminés continuam lá, imperturbáveis, indiferentes ao ruído inestético desses modernos espantalhos, sábias da importância do seu permanecer, determinadas na nossa necessidade do seu estar, certas, inquestionáveis no ficar.

Se o homem é o elemento de ligação entre a terra e o céu, estas chaminés sólidas, terrenas, fiáveis, implantadas sobre o céu das casas, são a nossa garantia da ligação entre céus: o pequenino nosso, o infinito nosso também. O meu Alentejo de menina era uma espécie de céu, ainda que em Agosto ardendo como um regenerado inferno. Recordo o silêncio desses dias como se o tempo não passasse e a eternidade estivesse ali a ser treinada. Tinha um céu sobre a cabeça e outro debaixo dos pés, perfumado de feno ou iluminado com papoilas. Entre os dois céus, eu e as chaminés, essas belas amigas de infância que não envelhecem com o tempo.

São Vicente - ChaminéNão sei se existe algum projecto no sentido de as propor a património da Humanidade, ou se não o serão já, mas ainda que isso não venha a acontecer, para mim elas já o são, mesmo que não tenham sido reconhecidas como tal. Aqui o declaro. Inquestionavelmente.

Artigo anteriorVote na Ameixa d’Elvas e Sericaia
Próximo artigoGNR inicia amanhã operação “Hermes – Viajar em Segurança”
Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.