Publicidade   
   Publicidade   

Relendo um conto de Tolstoi traduzido e publicado por Agostinho da Silva na primeira metade do século XX, viajo com a história até à minha infância. O conto de Tolstoi fala de duas irmãs, uma casada com um homem da cidade e outra com um camponês. Tendo a primeira irmã indo visitar a outra, pôs-se a exaltar a vida na cidade e a denegrir aquilo que considerava as privações da vida no campo. A história tem o seu desenvolvimento que não vou aqui relatar, mas faz-me recordar uma outra que a minha avó Joaquina Rosa, da Rua do Lavadouro no Povo de S. Vicente que já aqui mencionai, me contava, e cuja origem desconheço: se literária, tradicional ou da sua imaginação, embora o arquétipo da irmã rica e da irmã pobre seja encontrado em muitas tradições e textos. Creio que ma contava quando era ela a deslocar-se em visita a nossa casa, na altura em Alenquer, porque quando eu estava de férias em S. Vicente, a dormida era em casa da outra avó, Ana Carlota, que vivia na Rua Nova do Poente, de que também já aqui falei. Essa embalava-me com perfumes de limão ou de lavanda e alecrim.

   Publicidade   
   Publicidade   
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

A história que Joaquina Rosa contava (e ainda bem que não tinha lido os pedagogos, pois todos desaconselhariam tal horror para uma criança tão pequena) era assim: uma irmã pobre trabalhava em casa da irmã rica que a tratava muito mal, e assim procediam também o marido e os filhos. Enquanto amassava o pão, as lágrimas corriam-lhe, amargas, pelo rosto, e caíam dentro da massa. Um dia, à mesa, ao abrir o pão ao meio perante a família, a irmã rica deparou-se com veios de sangue que escorreram de cada metade do pão para cima da mesa.

Esta imagem é tão forte que a minha memória ficou congelada nela. Não me recordo, nem do prosseguimento do enredo, nem da sua conclusão. É uma imagem muito visual e de cores fortemente vincadas fazendo-me lembrar o estilo muito marcado de um pintor meu amigo.

Eu era muito pequena e a história era-me contada para adormecer, era daquelas histórias que as crianças ouvem repetidamente, talvez a seu próprio pedido. As crianças não são pessoas prudentes e muito menos sensatas, mas não me recordo de ter tido insónias por causa disto. Afinal, era só uma história. A vida de algumas pessoas é assim ou muito pior, mas eu ainda era ignorante acerca destas coisas. Por isso, tomei-a como antídoto ou vacina, uma espécie de suspiro de alívio de quem acorda de um pesadelo, ou como quem diz: “Ah!, é só uma história! Ainda bem!”. Não era. Mas eu não sabia. Com esta narrativa aprendi, também, como a maldade pode ser corrosiva, e por contraste, a superioridade alternativa da bondade.

Quando lamentava ser filha única, lembrava-me destas duas irmãs e isso servia-me de negativa consolação, embora logo acorressem exemplos conhecidos de irmãos cuja amizade contrariava totalmente esta narrativa.

Hoje é frequente ouvir pessoas queixarem-se de familiares próximos, muito próximos mesmo, como sendo o maior desafio das suas vidas. Já tenho ouvido dizer, na interpretação de alguns, que esse é um modo de aprendermos a amar na diferença e de aprendermos a paciência no desafio; no fundo, uma forma para moldarmos o nosso barro.

Em algumas terras onde tenho vivido, foi frequente encontrar litígios entre pais e filhos, entre marido e esposa, entre irmãos. Litígios que vão até ao derramamento de sangue e ao recurso à justiça. Mas sempre ouvi os meus pais dizerem que isso não era muito comum no Alentejo, ou pelo menos na nossa terra. Ainda que houvesse, naturalmente, alguns desaguisados nas famílias, não era habitual assumirem um excesso e uma espectacularidade que os transportassem para fora de portas ou para os palcos das forças de segurança ou da lei.

Será pela aprendizagem secular do convívio com as diferenças de outro povo, outra nacionalidade, outro olhar, aqui tão perto? Ocorreu-me agora. Deixo a hipótese, como especulação que é.

Artigo anteriorElvas: Dia Mundial da Criança assinalado pela Câmara
Próximo artigoProjecto-piloto para a Região Alentejo “Transporte a pedido”
Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.