Paula Freire, opinião
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Encostou-se ao beiral da janela a olhar lá para baixo, numa atitude de indiferença face ao infinito. O rosto, porém, revelador de vastos, profundos e secretos pensamentos a invadirem-lhe a alma.

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Um dia normal, como todos os outros. O soar dos passos apressados dos transeuntes na calçada da avenida; o buzinar constante dos automobilistas enfadados de engarrafamentos e trânsitos bloqueados, sentidos proibidos espalhados em cada esquina, estacionamentos atolados e um ou outro polícia desorientado no meio da confusão, a soprar avidamente o seu apito; o vendedor de ‘banha da cobra’ a apregoar mais um novo (ou velho) produto milagroso no mercado. O eco longínquo dos comboios a passar lá longe, na estação dos caminhos de ferro, com passageiros silenciosos, perdidos na vaga distância de um tempo imparável.              

E ela ali, encostada à janela, qual estátua. O silêncio dentro de si.

Dera-lhe nesse dia para cismar em antigas “águas passadas que já não movem moinhos”. Expressão que a própria tinha o hábito de utilizar quando se dirigia à filha, sempre atrapalhada com os seus problemas existenciais.

A luz da última réstia de sol ainda lhe aveludava o olhar disperso no horizonte. Um brilho que já fora natural mas que há muito desaparecera. Quando? Nem ela mesma se lembrava, tantos os anos que haviam passado!

Era-Um-Bom-HomemEstava sozinha em casa naquele final de tarde. Recebera um telefonema apressado da sua Alexandra, a informar que ia “jantar com o Raúl” (última conquista da filha, depois de um rol de lágrimas e deceções amorosas; uma dor que ela, tão pacientemente, no seu eterno papel de mãe que sofre em silêncio as desgraças da família, procurava sempre suavizar com palavras meigas e um sorriso de desveladas esperanças: “Não te preocupes, querida, um dia vai aparecer o homem que tu mereces…”). E assim passara anos, a viver as dores daqueles que amava, a aplacar tristezas, a cuidar da casa, da comida, da roupa, a fazer as contas à vida e a sonhar com um futuro sorridente para a única filha com que Deus a abençoara. Assim passara anos…

E ela?… Encostada à janela, naquele dia, lembrara-se dela! Há tanto tempo já não lhe acontecia lembrar-se dela que ficou surpreendida e até um pouco angustiada com o pensamento. É que ao lembrar-se assim dela, sem precaução nem anúncio prévio, trazia à memória recordações que julgava apagadas.

E foi quando o barulho de fundo da televisão ligada, para não se sentir tão sozinha, a transportou sem intenção para a sua juventude. Essa juventude que não pode deixar de comparar, agora, com o presente. A sua juventude… Uma lágrima rolou-lhe pelo rosto e nem sequer se deu ao trabalho de a limpar com a ponta dos dedos, como algumas vezes fazia, para o seu António não dar conta de súbitas tristezas que lhe invadiam o coração. Porque ela não podia… Era o baluarte da família e chorar em frente ao marido era dar-se parte de fraca!

Ah! O seu António… Tantos anos juntos!

Seria capaz de jurar que, se algum dia a filha se casasse, nessa condição não ficaria nem uma terça parte do tempo… Gostava de acreditar no contrário, mas ela via como as coisas funcionam atualmente. A sua Alexandra já tivera tantos namorados e nenhum lhe servira. Por qualquer razão pouco feliz, as relações ainda mal começadas já espreitavam o fim por entre gritarias, choros e muitas lágrimas de desânimo não escondidas. Agora, os jovens já não suportam nada. Tudo lhes serve de motivo para acabarem de vez com um namoro que parece começar da melhor forma possível, cheio de sonhos para o futuro, com muitos abraços, carinhos e beijos à mistura. E, de repente, pufff… O amor desaparece. Por tantas e inúmeras razões que encontram plausíveis, terminam tudo. E voltam a sair juntos… Como amigos! Enfim…

A verdade é que estas ideias, que lhe assomaram à cabeça, lhe trouxeram velhas lembranças. E não eram assim tão agradáveis! Se calhar, a Alexandra até tinha razão. Porque não haveria de procurar a felicidade que desejava? Encontrar, de facto, a possível pessoa certa?…

Ela não fizera nada disso. É certo que a vida e as condições eram outras. Mas casara cega. O seu António fora o primeiro e o único homem da sua vida. Alto, entroncado, voz grossa, chamara-lhe de imediato a atenção assim que lhe pusera a vista em cima. E ele também pareceu ficar agradado da companhia dela. Daí até ao pedido formal de casamento fora um salto.

E os anos passaram. E com o passar dos anos, os sentimentos esvaíram-se-lhe no fundo do peito dorido. Ela, que era tão sensível a um carinho de ternura. Ela, que era uma rapariga tão romântica e que adorava celebrar momentos especiais… Ela, que tinha tudo dentro de si, não encontrara nada cá fora. O seu António nunca lhe oferecera sequer, em todos estes anos de vida em comunhão, um único ramo de flores. E o aniversário de casamento? Se calhar, de tanto tempo sem ninguém para o recordar, até ela própria já se esquecera do dia. O único presente que se lembrava de ter recebido fora uma caixa de bombons. Oferecera-lho uma vez a filha, numa visita ao hospital, depois de uma operação às varizes.

O seu António estivera emigrado na Alemanha, estivera. Mas as cartas que lhe enviara haviam-se resumido sempre a meia dúzia de letras a perguntar pela saúde de todos, com o final certeiro: “Um abraço, teu António”. Palavras mágicas de cores douradas nunca ouvira do marido. E, lentamente, a chama fora-se apagando, até cair no hábito da rotina diária.

Era um bom homem, o seu António…

Mas matara os seus sonhos e fantasias de mulher.

Pelo menos hoje, a Alexandra, embora não encontre a pessoa certa, poderá levar sempre na lembrança momentos que lhe fazem saltar o coração. E a certeza de que, um dia, alguém se aproximou dela, a convidou para jantar e até será capaz de lhe colocar uma flor entre as mãos e murmurar-lhe gentilmente ao ouvido: “amo-te”.

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.