Início Ciência A erradicação da malária pode passar pelo intestino do mosquito transmissor

A erradicação da malária pode passar pelo intestino do mosquito transmissor

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Apesar de erradicada na Europa, a malária continua a matar perto de meio milhão de pessoas por ano mundialmente. Em 2016, estimam-se mais de 200 milhões de casos de malária no mundo, o que representa um aumento de 2.3% de casos em relação ao ano transacto e demonstra as dificuldades da Organização Mundial de Saúde (OMS) no controlo e erradicação desta doença.

[1] Em parasitologia é definido por vector um qualquer organismo ou hospedeiro intermediário responsável pela transmissão de um agente patogénico. Neste artigo mosquito e vector são usados de forma indiferenciada apesar de apenas as fêmeas de mosquitos da família Anopheles serem na verdade vectores de transmissão da malária.

A malária é causada por infecção com o parasita Plasmodium falciparum ou Plasmodium vivax transmitido pela picada do mosquito Anopheles. Actualmente as principais medidas para controlo e erradicação da malária centram-se no tratamento profilático de indivíduos que visitam regiões endémicas e na prevenção da transmissão entre residentes das regiões endémicas precisamente pelo controlo do vector[1].

Sara Porfírio, investigadora em Glicobiologia no Complex Carbohydrate Research Center, instituto de investigação associado à Universidade da Geórgia (EUA).

A OMS recomenda o uso de redes ou sprays insecticidas como principais métodos para a prevenção de picadas do mosquito transmissor da malária. Contudo, vários estudos recentes sugerem que a eliminação do parasita no mosquito através da manipulação genética do vector poderá ser mais eficiente do que tentar prevenir a picada ou o tratamento pré ou pós-infecção. Até hoje, o maior impasse para a implementação de vectores transgénicos resistentes à malária tem sido a vantagem selectiva e reprodutiva dos mosquitos selvagens quando em directa competição com as estirpes geneticamente modificadas. No entanto, em Setembro do ano passado, um grupo de investigação da Universidade Johns Hopkins (EUA), liderado pelo investigador George Dimopoulos, demonstrou que a alteração da expressão de genes do sistema imunitário no intestino do mosquito não só conferia resistência ao parasita da malária como conferia um vantagem reprodutiva em relação às estirpes selvagens. Neste estudo publicado na revista Science, os autores correlacionaram esta vantagem reprodutiva com alterações nas populações bacterianas do intestino dos mosquitos. Em simultâneo, o grupo do investigador Jacobs-Lorena, da mesma universidade, publicou outro estudo em que se mostra que a introdução de uma bactéria (Serratia sp) que expressa moléculas anti-malária no intestino dos mosquitos reduz em 90% o número de parasitas por insecto. Neste mesmo estudo, os autores demonstram que após inoculação oral a bactéria coloniza eficientemente o intestino e órgãos reprodutivos do mosquito possibilitando a transmissão às gerações futuras sem custos reprodutivos.

Muitas questões ainda se levantam quanto à praticabilidade de mosquitos geneticamente modificados no combate contra a malária, mas estes dois estudos apontam pela primeira vez para o microbioma intestinal como importante factor no controlo e eliminação deste parasita no mosquito, e por consequência, na transmissão desta doença que continua a matar quatro pessoas a cada cinco minutos.

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Sara Porfírio
Sara Porfírio é Mestre em Bioquímica pela Universidade de Lisboa e doutorada em Ciências Agrárias pela Universidade de Évora. Actualmente a residir nos EUA, desenvolve investigação em Glicobiologia no Complex Carbohydrate Research Center, instituto de investigação associado à Universidade da Geórgia (EUA). O seu trabalho foca-se na análise química e estrutural de polissacáridos (polímeros de açúcares) de origem vegetal e/ou microbiana. Além da sua dedicação à profissão, procura manter-se actualizada sobre os desenvolvimentos nas restantes áreas científicas, com especial foco nas Ciências Biológicas.