Paula Freire, opinião
   Publicidade   
   Publicidade   

Escrever a saudade tem sabor de pretérito imperfeito. Aquele paladar de passado que perdura no tempo. Talvez por isso, Agosto me sabe sempre a ricos palácios de outras eras.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Agosto é o mês que me conta da delicadeza do falar das coisas simples. Essa sensação que me fica por dentro, a adocicar todas as sombras que, com hora marcada, em mim moram no resto do ano. É em Agosto que me descubro nas palavras em branco de um poema adormecido a revelar-me, sílaba a sílaba, todos os descansos prometidos de meses incessantemente obstinados. E nos dias que nele habito, recoloca com leveza, amor e paciência.

As madrugadas convidam o sol a entrar no sentir da pele e dela libertam o peso das rotinas. Nesse aconchego súbito de luz e dos sonhos que me conhecem por dentro, regresso aos lugares onde tanto me encontro. Um retorno ao murmúrio do aroma das paisagens que se me demoram em visitas imprevistas. Um refluir ao sussurro das marés cheias onde as gaivotas escrevem a música das águas, enquanto voam em ângulos que me parecem impossíveis. Coloco um búzio junto ao ouvido e ouço o coração do mar a soletrar o nome do universo. Nele, invento o amor que me consola dessas distâncias.

Escrever a SaudadePelo cair da noite, a lua nasce brilhante e maior, desencontrada do ruído dos homens. Nesse silêncio, o gosto antecipado de dois cálices de vinho perfumado a murmurar desejos já esquecidos, com as mãos entrelaçadas no corpo de quem se ama. A respiração fica suspensa em segundos que são eternos. E na voz dessas emoções cúmplices com que nos vestimos, desvenda-se o avesso dos sentidos. Depois, olhar a noite, é apenas admirar constelações que convidam a partilha do espírito ao relento da brisa amena de verão. E o sono descansa mais cedo, certo de que a manhã chegará livre e justa.

Em Agosto, as manhãs são puras e sabem a fruta madura e a café com leite e torradas quentes. Inesperadamente, um abraço solto e um beijo que pede ternura. O sorriso diz, descontraído, “cheiras a morangos…”. Devolvo o olhar e penso que é mesmo na simplicidade destes momentos perfeitos, que a vida inteira acontece toda dentro de mim.

É assim, pela luz que respiro leve na claridade destes espaços tão felizes, que descubro as certezas da minha identidade.

Depois da alma limpa, preparo-me para voltar ao caminho que é o lado esquerdo da vida. Afinal, em Agosto, descubro sempre que nessa vereda só cabe metade de mim. A outra metade, essa, fica suspensa na orla da terra e do mar, a preparar a festa do meu regresso.

Artigo anteriorDetido homem indiciado pelo crime de incêndio florestal
Próximo artigoO sabor dos alimentos
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.