Compulsão
   Publicidade   
   Publicidade   

Jaime Cortesão, o médico que se fez escritor e historiador, e que senhor escritor, e que senhor historiador!, para além de descrever os fenómenos da formação de Portugal, embora não se remetendo exclusivamente aos factores geográficos, dá-lhes uma particular e justificada atenção.

   Pub 
   Pub 
   Pub 

Com ele, ficamos a entender que foram os Romanos que influenciaram as populações da península a abandonar os lugares altos em favor dos vales e planícies. Desta medida, que constituiu uma ruptura considerável e primeira no nosso critério e forma de povoamento e ocupação da terra, saiu beneficiado o Alentejo. A juntar a este factor, o desenho da rede das estradas militares (os Lusitanos tinham utilizado as vias naturais) pelos mesmos Romanos, que contribuiu para a criação daquilo que designa como «as linhas gerais de povoamento» e considera «um sistema admirável de comunicações», lajeadas, medidas e anastomasadas ( formavam redes que se dividiam e entrelaçavam). A estrada do Alentejo, que era uma das duas grandes estradas naturais, foi aproveitada pela engenharia das vias  romanas. Lisboa (Olisipo) estava unida, por um dos lados, à foz do Guadiana, por uma estrada que seguia por Salacia (Alcácer), Beja (Pax Julia), Mértola (Mirtilis)…

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Foi um enorme avanço civilizacional, o processo que conduziu das vias naturais à rede romana, mas quando me ponho a pensar no quanto necessito e quero e me alegra regressar ao Alentejo, e o quanto vou adiando, mesmo com as opções que hoje temos, quer das estradas, quer da velocidade, interrogo-me como seria se vivesse nessa época. Ou será que a dificuldade funciona ao contrário e ao invés de nos fazer adiar o impulso é o estímulo para a partida? Porque o facto era que as pessoas viajavam, e não era pouco. Dispunham de meses e anos nas suas vidas para se deslocarem de um lado para o outro e ainda por cima viviam menos tempo do que nós. Isto leva-me até à reflexão sobre o que valorizamos hoje.

Iberian_Peninsula_in_125-ptTodas as estradas do Sul do País, ligadas umas às outras em rede, comunicavam com Mérida (Emerita Augusta). Isto faz-nos acreditar que já nesta época, a comunicação era importante. E pergunto-me: para lá das aparências, sê-lo-á hoje? Poderemos afirmar que vivemos numa era de comunicação, com as pessoas fechadas sobre si, famílias à mesma mesa do restaurante cada uma fixada no seu telemóvel? Pessoas fechadas nos seus países, nas suas cidades, nas suas casas, nos seus quartos, nas suas pequeninas vidas?

Os Lusitanos utilizaram as vias naturais, os Romanos criaram redes viárias aproveitando as que já existiam. Ambos foram inteligentes. Nós aprimorámos as vias físicas e criámos vias virtuais. Para quê? Para nos fecharmos nos nossos quartos em frente a um computador, para nos fecharmos nas nossas pequeninas redes associadas e associais, à mesa de um restaurante, num banco de jardim, à mesa de família, ignorando tudo o que nos rodeia: pessoas, paisagens, cheiros, texturas, afectos.

A Colectânea Eurocidade acabada de sair, com comovente evento em Santa Eulália no passado dia 14 de Setembro, é um valioso contributo para nos ajudar a sair da neurose colectiva onde nos encerrámos, fechados em virtuais celas de luxo onde nada nos falta, excepto o essencial. Amorabilidade. Aquilo que, segundo Jaime Cortesão, é essência da nossa psique: a amorabilidade plástica, hoje oculta. Que na nossa provisória loucura (assim espero) não a percamos, que não a dissolvamos em qualquer nuvem virtual, com tanta estrada romana, lusitana, ibérica, atlântica… a perder de vista.