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Eulália ou a boa palavra

Segundo o Borda d’Água, no dia 12 de Fevereiro celebra-se o dia do nascimento de Santa Eulália de Barcelona. Este ano, em quarto-crescente. Não será por acaso que esta santa espanhola dá nome à aldeia raiana, supondo que a proximidade não seja um factor estranho ao caso. Existindo duas santas com o mesmo nome, ou pelo menos a crença na sua existência, suponho que a data de comemoração das festividades da aldeia, em Agosto, não a associem particularmente quer à de Barcelona quer à de Mérida, que é celebrada a 10 de Dezembro. Apesar de a santa de Mérida, com o mesmo nome e história e martírio semelhantes, ser mais próxima desta aldeia, onde vivi até aos dois anos. Não sou historiadora, mas gosto de tentar perceber certas coisas, pelo que fiquei a saber que o nome da aldeia se deve ao facto de a primeira ermida da povoação ter sido dedicada a Santa Eulália. Uma curiosidade é a existência de um texto poético em língua francesa, o mais antigo que se conseguiu preservar, ter por título Cantilena de Santa Eulália. É um texto próximo do ano 880. O tema, o martírio da Santa Eulália de Mérida.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Santa Olalha é a forma arcaica de Eulália, que significa, na sua acepção etimológica, a “boa palavra”. Do grego: “Eulalos”, ou “bem falante”. O prefixo “eu” significa “bom, bem” e “laleo” significa “para falar”. Está relacionado com “eloquente” ou aquele que “fala bem”, o que é curioso, tendo em conta o factor comum às “duas” santas: sendo crianças ainda, tiveram a coragem de enfrentar o poder com a verdade através da palavra, o que lhe(s) valeu o martírio. O seu falar bem, ou eloquência, no caso desta história, comprometeu-lhes a vida, mas salvou-lhes a alma e enriqueceu culturalmente a humanidade através do símbolo. Possivelmente, serão a mesma santa, e à influência da ermida a ela erguida não será alheia a de Mérida, mais próxima que a de Barcelona, pois acima da província de Badajoz.

Esta santa com a “boa palavra” no seu nome, é representada, por vezes, com um livro na mão. Se acrescentarmos a isto a existência da “Cantilena”, o poema a ela dedicado sobre o seu martírio, e o facto de ser a palavra poética a boa palavra por excelência, tudo isto parece fazer muito sentido e conduz-nos  a uma concepção filosófica da língua que encontramos, por exemplo, em alguns autores da designada Filosofia Portuguesa, como é o caso de António Telmo, filho adoptivo do Alentejo até 2010, quando partiu. Já Platão se debruçara sobre estas questões da língua e sua relação essencial com as coisas (materiais ou ideias) designadas, isto é, não será casual ou aleatório o nome das coisas, mas haverá entre os sons e a realidade uma relação essencial ou espiritual.

O poeta Teixeira de Pascoaes, por exemplo, recusou-se a seguir o acordo ortográfico da sua época, nomeadamente não aceitando substituir o “y” da palavra “abysmo” pelo “i”, por o “y” reproduzir, na forma, o sentido da palavra. “Abysmo” contém em si o deslize para o fundo, Eulália contém em si a palavra boa, a que eleva. Da boca de Eulália martirizada elevou-se uma pomba. Não importa aqui se estamos a falar de factos ou de lenda. Poderá ser o que cada um entender. O que importa, para o caso, é o símbolo, a poesia da alma.

Com tudo isto vos desejo, apesar de as festas da aldeia serem celebradas em Agosto, curiosamente na mesma altura em que Santa Eulália de Barcelona é celebrada nas igrejas do Oriente, que no próximo dia 12 de Fevereiro, quer os que estejam fisicamente  em Santa Eulália, quer os que estejam lá com o coração, o que será o meu caso, que tenham um dia feliz, com belas palavras poéticas, as únicas que conseguem, pela metáfora, concentrar a verdade, saltando com graciosidade sobre abysmos e do caos criando, com arte, uma nova ordem.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.