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Agostinho da Silva atribuía a sua nascença no Porto a um erro cósmico, já que seu propósito tinha sido nascer em Barca d’Alva, terra para onde acabou por ir viver ainda muito pequenino, devido ao trabalho do seu pai.

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Embora comigo tenha acontecido algo semelhante, não o considero um erro, ainda que alguma intervenção cósmica aí possa ter havido. É como se eu tivesse duas terras de nascimento, uma onde nasci efectivamente, e outra onde vivi na barriga da minha mãe até ao momento do parto e depois do parto. A terra onde vivi com os meus pais durante a gestação, concepção e depois do nascimento até aos dois anos, foi Santa Eulália. Aquela onde nasci e onde viviam os meus avós paternos e maternos e praticamente toda a minha família, que nessa altura era grande, porque “ninguém” tinha morrido e ainda eram todos eternos, é São Vicente.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Há quem diga que as nossas circunstâncias de nascimento se repetem ao longo da nossa vida. Tenho-o observado e confirmo-o.

Vai agora nascer, no dia 14 deste mês, uma Colectânea que reúne várias artes, das literárias às visuais, Eurocidade, que reúne participações de Elvas, Campo Maior e Badajoz. A data inicial era outra, em que eu estaria impedida de participar, por coincidir com uma conferência a fazer em Setúbal, há muito marcada, compromisso que não poderia falhar, mas lá consegui que me mudassem a data da minha participação no Colóquio para poder estar no lançamento da Colectânea, que seria em Elvas. Infelizmente, a data para o lançamento de Eurocidade teve, por sua vez, de ser alterada, devido a condicionalismos de espaço, passando para um dia, que será o próximo da 14, coincidente com uma festa também já previamente marcada, a que não posso faltar, por ocorrer em espaço onde vivo aos fins de semana, e celebrar o nascimento de um ser chamado Gabriel, dando antecipadamente as boas vindas ao meu neto e primeiro filho de minha filha. Tudo organizado, convites feitos, impossível, desta vez, alterar a data ou não estar presente. O que é curioso é que os espaços alternativos para a festa da Eurocidade passaram a ser São Vicente ou Santa Eulália, os meus dois berços, acabando por ficar estabelecido que seria, e será, Santa Eulália. Ocorrerá depois de amanhã, sábado, como Graça Amiguinho de Barros, a idealista fada poeta que deu à luz e abençoou este projecto, e é também a “culpada” por eu escrever nesta coluna, já aqui anunciou na semana passada.

Colectânea EurocidadeTendo pena de não poder estar no lançamento; pena, contudo esbatida, porque o motivo da impossibilidade é feliz. O que ressalta é que estarei duplamente em festa: pela chegada próxima de um novo Ser e pelo nascimento de uma nova Antologia. À qual me sinto afectivamente muito ligada, porque é como voltar a casa, à casa inicial. Estar nesta antologia onde se fala com sotaque alentejano e castelhano, as duas músicas que me embalaram o berço, é uma profunda alegria. A minha avó Joaquina Rosa, cuja casa me acolheu no nascer, tanto falava num delicioso português do Alentejo, como praguejava em castelhano, quando estava aborrecida. Para os meus ouvidos era tudo música. Que hoje continuo a ouvir.

Não a ouvirei fisicamente no dia 14, mas o meu coração estará atento, a celebrar com todos os autores presentes e também músicos e actores que acrescentarão seu amor e arte ao evento.

Dinis-e-IsabelUm dos exemplares que em breve lá irei recolher, destinava-se a uma querida prima, também ela nascida em São Vicente, Maria José Morcela Pinto, que vivia em Toulose. Partiu a semana passada para “país” mais distante e desconhecido. Era um coração de ouro. Já não poderei entregar-lhe a antologia, mas será entregue aos seus filhos, franceses falando impecavelmente português, porque de pequeninos era a língua que a mãe sempre usava para comunicar com eles. Terão em breve, nas suas mãos, em região  não muito distante de onde Santa Isabel terá trazido para a corte portuguesa e para todo o país, as influências do Espírito Santo, um exemplar de uma colectânea “falando” com o sotaque da sua mãe, integrando imagens das paisagens de que ela vivia rodeada em criança. Será um testemunho, uma memória de amor, uma saudade em forma de livro, um bálsamo materializado. Imagino quantas histórias outras, umas mais felizes, outras tão comoventes como esta, os autores, que aproveito para saudar, terão para contar. Que tenham um dia muito feliz em Santa Eulália, outro tanto farei onde estiver, um pouco mais acima, mais perto do mar, com memórias saudosas e doces e expectativas felizes.

rainha-Isabel-de-Aragão-e-seu-esposoO-milagre-das-rosasA todos os que estiverem por perto ou ali puderem deslocar-se, que não percam esta oportunidade de ouvir, conversar e estar com alentejanos e espanhóis reunidos num mesmo espírito de fraternidade na criação. Que os frutos não tardem e os que podem reparem, para que, com os recursos de que dispõem e por que são responsáveis, se juntem neste propósito fraterno e cultural. É para onde vale a pena canalizar os recursos. A rainha Isabel de Aragão e seu esposo, realizando criativo e transcendente casamento entre Portugal e Espanha, dizem-nos isso lá do fundo dos tempos. Que os ouçamos, que não tenham de gritar…