Eutanásia, sim ou não?
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Opinião de Graça AmiguinhoA vida e a morte são um mistério que o homem não tem o poder de desvendar, pois a sua inteligência não o consegue explicar.

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Nascemos para viver e ser felizes, mas a maior certeza que existe em todo o ser, é o seu fim terreno, a morte.

Poucos gostam de falar dela, como se apenas acontecesse aos outros e a sua vez nunca chegasse.

É preciso alguma maturidade e, sobretudo, um sentido espiritual da vida, para encararmos esse último momento do filme da nossa passagem pela terra, como um facto natural.

Como acontecerá e quando, para quem está mentalmente são, é assunto que não perturba as suas vivências, procurando em cada momento, dar valor ao que o rodeia, alimentar sentimentos, criar verdadeiros laços de amizade e dar-se aos que o cercam, com toda a força do amor.

Para quem tem Fé, é mais fácil aceitar o sofrimento como uma forma de remissão das faltas cometidas, assumindo-as com coragem e dignidade.

Mas nem toda a gente é crente nos valores espirituais e temos obrigação de os respeitar, como queremos ser respeitados nas nossas convicções mais profundas.

Uma sociedade democrática é de todos e procura respeitar todos os cidadãos, independentemente das suas opções e religiosidade. Não pode excluir ninguém, muito menos, ignorar a sua vontade, seja em que aspecto da vida for, incluindo a própria morte.

Quando se debate um tema de tanta responsabilidade como a «Eutanásia», parece-me, como leitora e ouvinte, que se quer dar a entender, por parte de quem se opõe, que o Estado Português quer obrigar os seus cidadãos a escolher essa forma de pôr fim à vida.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

No meu entender, ninguém é obrigado a praticar a Eutanásia. Creio, até, que poucos de nós temos coragem para a pedir.

Porém, o Poder Público tem obrigação de respeitar e como tal, despenalizar, aqueles que a desejam praticar, num acto responsável e no perfeito uso das suas faculdades mentais.

A minha última vivência, junto de quem tanto amei e vi sofrer, meses a fio, foi extremamente dolorosa, tanto para mim, por me sentir impotente para minimizar o seu sofrimento, como para ele, muito embora o aceitássemos com resignação e, sobretudo, com a chama da Fé que alimentou toda a nossa  vida.

Quando tanto se fala em Cuidados Paliativos, infelizmente, nem todos os doentes, em fase terminal da vida, têm acesso a eles. Nunca esquecerei que, 24h antes da morte do meu marido, o Hospital queria mandá-lo para casa, independentemente de saber se eu tinha as devidas condições, para uma situação tão delicada. E eu aceitei, procurando encontrar o apoio que eu já não tinha forças para lhe dar. Mas o destino se encarregou de ele não precisar de mais nada e o aliviou do seu martírio.

Quando vejo os Hospitais privados se unirem para lutarem contra a Eutanásia, não acredito nas suas manifestações de convicções religiosas ou humanistas, mas sim nos seus interesses económicos, aumentados de forma monumental com os doentes mais abastados, que a eles recorrem no fim da vida.

Não esqueçamos a luta travada para aprovação da despenalização do aborto. Só toma essas decisões quem quer, e quem somos nós para julgar alguém?

O certo é que o número de abortos decresceu imenso nos últimos anos e menos mulheres morreram, também, ao recorrer, nessas situações, a serviços sem qualidade.

Os tempos mudam e as liberdades fundamentais são responsabilidade de cada cidadão e compete ao Estado Democrático, defendê-las. Talvez, há uns anos atrás, se eu quisesse fazer a doação do meu cadáver, à ciência, isso fosse considerado uma heresia. Hoje é um acto que nos dignifica, pelo amor demonstrado ao nosso semelhante e que ainda é desconhecido de muita gente.

Eutanásia?

Só o futuro dirá qual a melhor opção, se um dia me sentir só, se não tiver quem me possa cuidar e me acarinhe.