Exércitos ocultos nos corações

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Decorreu ainda antes da pandemia, no primeiro dia do mês de Fevereiro, a apresentação do número triplo da revista A Ideia, revista libertária, próxima da estética surrealista e com inspiração filosófica, supremamente dirigida por António Cândido Franco a partir de Évora, onde vive e em cuja Universidade lecciona. Tive o privilégio de participar no lançamento, com leitura de alguns textos sugeridos pelo seu director, sendo um deles de António Feliciano de Castilho: uma passagem sobre o Exército de um texto publicado em 1849, “A Felicidade pela Agricultura”.

Aí afirma que falará sobre o Exército, mas não sem antes pedir licença aos lares e às árvores, «que sempre em ouvindo tal palavra se estremecem e horrorizam». Considera o Exército «um mal, complexo de males sem número» e considerando o soldado, alternadamente, um escravo e uma vítima. O Exército, «uma arma em mão de salteador». De acordo. Mas não é tão simples.

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António Cândido Franco

Evidentemente que se fizermos um levantamento de opiniões, uma larga maioria será a favor da sua extinção. É uma visão bem-intencionada e romântica da coisa. Nada a opor. Sou desta opinião. Só que não é tudo.

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Na discussão, defendeu-se ali uma utilização solidária e pacífica do Exército. O que já acontece, no combate aos fogos, no apoio em catástrofes, e por aí fora. Aliás, sempre houve, nos Exércitos, como em todas as organizações, pessoas que, apesar de tudo, conseguem elevar-se acima da Instituição e enobrecer o que nem sempre nos acostumámos a ver assim. Eu própria tenho uma experiência próxima, a do meu pai, que sempre se comportou, enquanto militar, ou civil, com valores de ética, solidariedade, justiça, equidade, pacifismo e bondade. 

A questão é muito mais complexa.  Não é possível abolir os Exércitos por decreto enquanto existirem dentro de nós rancores e ódios de estimação que cultivamos cuidadosamente como flor em estufa; enquanto as famílias, as empresas e as instituições em geral, como os estádios, as escolas, forem pequenos exércitos sem armas à vista, usando uma tecnologia muito mais sofisticada e mortal que é a palavra, o pensamento e a acção.

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António Feliciano de Castilho

Os exércitos não passam de um reflexo material em espelho, no mundo dos homens, daquilo que acontece na mente das massas a que pertencemos, no mundo das emoções.

Gandhi sabia-o.

Foi seu um dos outros textos lidos na apresentação, onde afirma, entre outras coisas, que nenhuma grande injustiça dá direito a que se cometa outra injustiça. 

A propósito disto, conto-vos uma história real.

Quando eu era pequena já não gostava do Carnaval, nomeadamente as estúpidas brincadeiras de molhar, sujar ou prejudicar pessoas. Um dia, na vila, um rapaz bastante mais velho, molhou-me a ponto de eu ficar completamente encharcada. Senti-me tão cheia de raiva, que fui dizer ao meu pai que queria que ele matasse o rapaz. Ainda hoje estremeço com o meu aparente desejo. Quando olho para as minhas sombras infantis não tenho dúvidas sobre a capacidade do ser humano em evoluir e limar a sua pedra bruta. Tenho dificuldade em concordar com Rousseau. O bebé não é uma folha em branco cheia de bons propósitos, é um papel já com muitas marcas impressas, daquelas invisíveis, que a vida vai ajudando a revelar. De modo que eu sugeria que o meu pai matasse o rapaz, pois para alguma coisa haviam de servir as armas expostas nas vitrinas lá no quartel. E ele não havia de voltar a molhar-me. Lembro-me do sentimento contraditório que acompanhava o meu desejo, que não era real, mas apenas um desabafo produzido pela raiva. Ora o meu pai, que não permitia nem um estalo ou algo que se parecesse, aos detidos, ao ouvir a minha solicitação, mudou a compaixão que sentira ao ver-me em estado quase líquido, para uma enorme indignação. Contra mim. Não contra o rapaz. Eu, ainda cega pela zanga, mas ao mesmo tempo aliviada por perceber que o pedido máximo não iria ser satisfeito, ainda tentei negociar umas penas menores, que foram descendo até o meu pai me dizer que se continuasse naquele disparate me fechava onde costumavam ficar os delinquentes. De facto, era o que eu estava a ser, apesar da pouca idade. O argumento era pesado e eu tive de ingerir e digerir a hostilidade. Ainda não havia jogos de guerra de computador, o mais bélico que existia eram as bandas desenhadas e os filmes de índios e cow-boys, e eu convenci-me que, sendo filha do “Xerife”, tinha mordomias inauditas. Felizmente, era filha de um homem de bem, ainda que fazendo parte de uma instituição militar. Eu estava fora dela, mas não estava a ser, pelo menos naquele momento não fui, uma pessoa de bem. Contudo, o exemplo vindo de cima teve peso e fui aprendendo com o que via. Longo caminho ainda tenho a percorrer, mas alegro-me por já ter feito alguns centímetros. Isto, a propósito do Exército. Não esqueçamos os episódios de bullying nas escolas, nos estádios. Com adolescentes destes, para que precisamos de Exército? Com adolescentes, jovens e adultos como nós, de que vale eliminar o Exército? Assim como não adianta exterminar ditadores enquanto estivermos sujeitos à ditadura das nossas emoções, a que nos submetemos de bom grado e acriticamente. Repare, leitor, que não estou a defender a ditadura, refiro-me à eliminação do ditador que não seja acompanhada da identificação do ditador em cada um de nós. É claro que alguns vão dizer: “Que horror! Eu??? Pessoa tão boa?”.

A Ideia
A Ideia

Como Gandhi preconizou, é urgente um trabalho de educação social, que passa, obrigatoriamente, pelo auto-conhecimento. Se nos conhecemos, sabemos por que razão reagimos de tal maneira, podendo antever problemas e evitar alguns dissabores. Se nos conhecermos saberemos que muito do que vemos e censuramos fora, está também dentro de nós, ainda que a outra escala. Se o mundo estivesse repleto de bonzinhos não assistíamos ao espectáculo que todas as noites o telejornal nos oferece. E já reparou, leitor, como a maioria dos corruptos e assassinos não se distingue, em nada, pelo menos na aparência, de um honesto chefe de família? Ou de um general, de um professor, de um médico, de um motorista? Fazemos todos parte de um grande exército, e faço minhas as palavras de Karl Valentin: “E não se pode exterminá-lo?”. Pois não pode, não, porque é com esta matéria-prima que havemos de nos transcender a nós mesmos. Nessa altura, sim, poderemos eliminar os exércitos, ou talvez não necessitemos. Eles cairão por si, por falta do alimento que deixámos de lhes fornecer quando o nosso íntimo deixou de ser um campo de batalha.

Cow Boys
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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.