Maimónides Judeu sefardita Córdova
Maimónides Judeu sefardita Córdova
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Guardo, de quando era pequena, alguns amuletos que a minha avó, que vivia ao cimo da Rua Nova do Ponte, em S. Vicente, me dera, enfiados num alfinete-de-ama que por sua vez era espetado na combinação, uma peça de roupa que hoje não se usa, mas que na altura era indispensável. Nem sei como passo hoje sem ela. O pequeno grupo de amuletos era composto por uma mão fechada em forma de figa, uma estrela de David em forma hexagonal e o selo de Salomão, pentagonal; estes dois últimos inscritos nas respectivas figuras geométricas. Eu estava, pois, sem o saber, provida dos meios mágicos apropriados para enfrentar as agruras da existência. O mal não tinha por onde penetrar em mim. Os pequenos objectos eram eficazes contra as doenças e caçavam todos os demónios que se atrevessem a atravessar-se no meu caminho. Não tinha eu consciência disto, os amuletos eram pequenos objectos divertidos que não tinham significado nenhum. Apenas sabia, e acreditava, pois era verdade que me chegara pela voz do amor, que era importante usá-los e que me protegiam, mas não me interrogava de que forma.

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Hoje sei que me encontrava mergulhada em pleno mundo da credulidade e da superstição, herdeira de um ramo da tradição cabalista e judaica onde anjos e demónios formavam verdadeiras legiões e conviviam com os homens a seu bel-prazer. Sabemos hoje da influência árabe e judaica, não apenas nos nossos hábitos religiosos, mas em todo o quotidiano, e basta olhar com atenção certos costumes aparentemente inexplicáveis, para percebermos as ligações remanescentes nos nossos comportamentos.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

De facto, existiu uma Cabala prática e popular recheada de receitas de protecção, cura e encantamentos. Mas isto não é tudo. Outra tendência existia na Cabala que Maimónides, rabino médico e filósofo nascido em Córdova em 1138, representa, e que combate tudo o que seja a credulidade e a superstição. É uma linha aristotélica com uma obra filosófica bastante próxima do racionalismo. O mesmo racionalismo que imperou a partir do século XVIII e que, claramente, impregnou judeus e não judeus permanecendo até hoje, tal como a superstição, alegremente convivendo ou opondo, a partir do judaísmo, o paradoxo da existência do pensamento racional e do pensamento místico, ambos tendendo, a espaços, a aproximarem-se de extremos e radicalismos onde o paradoxo é de difícil vivência, ao contrário das desejáveis «restaurações exigentes de equilíbrios rompidos e de harmonias esquecidas» como defendem os autores de A Cabala e a Tradição Judaica.

amuletos - Museu Nacional de Arqueologia

Temos uma herança filosófica e religiosa riquíssima, herdeira de três tradições. O pensamento místico e o pensamento racional vêm-nos acompanhando, separando-se e opondo-se tantas vezes com conflito. Talvez tenha chegado o tempo de reunir estes dois tipos de pensamento, usando as palavras dos autores do livro acima citado, «no acordo sinfónico em que poderiam – e talvez devessem – convergir e culminar». Tive a sorte de, na aldeia alentejana que referi no início da crónica, e de que já tenho falado em outras ocasiões, andar entre duas casas. Numa delas, um avô falava-me de ciência, dizia que a religião era o ópio do povo e tinha como valores mais altos a liberdade, a fraternidade, a igualdade. Na outra casa, uma avó aspergia-me com água benta e introduzia-me amuletos na roupa interior. Os seus valores eram a alegria, o amor e a fé. Eu tive o privilégio de beber destas duas fontes. Sem me sentir especialmente ligada a qualquer uma delas, sentir-me-ia amputada se uma me tivesse faltado. Vim acompanhada até ao presente pelo selo de Salomão e pelos desenhos das correntes eléctricas alternadas, herança de Tesla, feitos pelo meu avô. Uma memória terna, onde todas as oposições se dissolvem e onde a maior dificuldade é, sempre foi, ter de escolher um dos lados, porque o impulso mais forte é, foi sempre, ter reunidas no meu coração estas duas formas de amar, fazer a síntese daquilo que veio para separar para que aprendamos a reunir. Que não é, ainda não será, a síntese superior, mas são as minhas pequenas sínteses quotidianas da pequena alentejana em aldeia raiana que sempre serei.