Início Opinião João Cabrita Falando de… “A Cidade do Homem”, de Amadeu Lopes Sabino

Falando de… “A Cidade do Homem”, de Amadeu Lopes Sabino

A Cidade do Homem, produto de um escritor que em Elvas nasceu em 1943 e é condenado em 1972 por crimes contra a segurança do Estado e despachado para Penamacor, local onde assentavam praça todos aqueles que haviam sido condenados, independentemente da sua habilitação escolar...

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É da cidade do homem, António Dinis da Cruz e Silva. Elvas onde foi juiz auditor na guarnição militar entre 1764 e 1775 que nos fala. Desentendimentos entre o bispo Lourenço Lencastre e o deão José Carlos Lara que o leva a recusar-se a apresentar O Hissope ao bispo, o mesmo sucedendo ao deão que lhe sucedeu, seu sobrinho, Inácio Joaquim Alberto de Matos.

Frequentador dos serões familiares em casa de Francisco José da Silveira Falcato, magistrado como ele, ia ouvindo o que da querela se propalava na pacatez da cidade de Elvas e o que o deão narrava das suas desavenças com o bispo, da parcialidade do cabido que o condenara a uma coima.

Sofrendo de problemas oftalmológicos, António Dinis ia memorizando o que ouvia, ele que como poeta estivera na fundação da Arcádia Lusitana em 1756. A Cruz e Silva associaram-se outros, Correia Garção, Reis Quita, Francisco José freire, Manuel de Figueiredo. Outros se juntaram, como José Anastácio da Cunha, Filinto Elísio, Tomás António Gonzaga e Cáudio Manuel da Costa, além de Basílio da Gama, Santa Rita Durão e o satírico Nicolau Tolentino  de Almeida.

Todos os aderentes se serviram de um nome arcádico, tendo António Dinis da Cruz e Silva, adoptado o de Elpino Nonacriense.

Utilizando como divisa a expressão latina Inutilia Truncat,não foi muito longa a vida da Academia, não indo além de 1777. Como indicia a expressão, o grande objectivo era banir da poesia o que fosse inútil, como as metáforas exorbitantes, as hipérboles, tentando imitar os clássicos, como Horácio, Píndaro, Teócrito, recusando o estilo gongórico e jesuítico, aproximando-se de Camões. Do talento de António Dinis sairão postumamente em 1801, em edição de Coimbra e em 1820, em Lisboa, as Odes Pindáricas onde elogia Vasco da Gama e Duarte Pacheco Pereira.

Dos serões em casa do magistrado Falcato, uma vez memorizados, versejava, ditando o que a sua verve produzia, limitando-se José Falcato a escrevê-los. Estava em embrião O Hissope, poema herói-cómico constituído por sete Cantos, que terão levado dezassete dias a ser compostos. Cantos de versos desiguais, de rima branca, cujos primeiros versos vale a pena conhecer:

  Eu canto o bispo e a espantosa guerra

Que o hissope excitou na Igreja de Elvas.

Deste poema escreveu Garrett em Bosquejo da história da poesia e língua portuguesa “O Hissope é o mais perfeito poema herói-cómico do seu género, que ainda se compôs em língua nenhuma: se no castigado da dicção o excede o Lutrin, no desenho da obra na regularidade do edifício, na imaginação, foi o discípulo de Boileau muito além do seu grande mestre”.

O Hissope foi publicado pela primeira vez em 1802, em Paris, com a designação de Londres, reimpresso em 1817 e em 1821, sempre em Paris, então com a designação verdadeira.

Em Portugal não era permitida a sua impressão porque o poema era proibido, contudo durante a curtíssima estada dos franceses em 1808, foi feita uma edição cujos exemplares foram de imediato recolhidos, assim que os franceses foram expulsos.

A Cidade do Homem, produto de um escritor que em Elvas nasceu em 1943 e é condenado em 1972 por crimes contra a segurança do Estado e despachado para Penamacor, local onde assentavam praça todos aqueles que haviam sido condenados, independentemente da sua habilitação escolar, Amadeu Lopes Sabino incorpora a Companhia Disciplinar como faxina na Secção de Justiça, mas, mas depois de um breve período de “ empenho exclusivo na limpeza”, “desmerecedor de tocar em armas, mas merecedor de empunhar vassouras e esfregões” (P.525), quando o sabem licenciado em Direito, encarregam-no de despachar dezenas de processos esquecidos nas gavetas da Secção, muitos deles com prazos excedidos, o que permitiu a libertação de muitos militares.

Aprofundando o conhecimento da vida de Cruz e Silva que em Elvas foi juiz e julgou soldados que dos quartéis da cidade esmolavam e desertavam para as aldeias e para Espanha, por falta de meios do estado para custear as tropas, em 555 páginas é possível ler uma época em que o Marquês de Pombal dita leis em Portugal e a rainha D. Maria I é implacável na revolta em Vila Rica, no estado de Minas Gerais.

Terminada a sua missão em Elvas em 1775, Cruz e Silva é colocado como desembargador na Relação do Rio de Janeiro, onde acrescenta o Canto VIII ao Hissope, por despacho de 1776, voltando à Metrópole em 1789, ano da Revolução Francesa.

Se os ventos da Revolução chegam a toda a Europa, a exploração do ouro no Brasil está na origem de altercações em algumas regiões do Brasil para onde emigram muitos portugueses em busca de riqueza fácil e rápida.

Não era pacífico o clima no Brasil. A campanha do ouro era também uma oportunidade para o Rei aumentar os seus rendimentos. Empossado governador de Minas Gerais, em 1788, o Visconde de Barbacena impôs a entrega da derrama anual fixa de cem arrobas de ouro por habitante da província, castigando de forma severa os incumpridores.

Em 1790, Cruz e Silva é nomeado desembargador da Casa da Suplicação, o mais alto cargo legislativo. Nesse mesmo ano, alguns intelectuais, poetas eminentes, antigos colegas de Cruz e Silva na Universidade de Coimbra, participam na Conjura de Vila Rica, capital de Minas Gerais, visando a sua emancipação da mãe-pátria, influenciados pelos ideais de liberdade provenientes da Europa e que já tinham conduzido à independência os E.U.A. em 1776.

A Rainha D. Maria I convoca para o Rio de Janeiro uma comissão de magistrados, constituída por Sebastião Xavier de Vasconcelos Coutinho, António Gomes Ribeiro e António Dinis da Cruz e Silva.

A revolta, conhecida por Inconfidência Mineira, era liderada pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier, alcunhado de Tiradentes, despeitado, pedreiro-livre de quatro costados que conspirava contra a Coroa, que arrancava dentes, curava os desgraçados, era um homem caridoso. Os desgraçados pagavam bem a caridade. Era cirurgião-dentista, para a época.

 Julgado pelo tribunal de que Cruz e Silva fazia parte, o Tiradentes é condenando à morte por enforcamento, sofrendo o corpo, depois de morto, sevícias inimagináveis (p.494). Os outros cúmplices, alguns companheiros de letras de Cruz e Silva, acabaram por morrer no degredo.

 António Dinis não assistiu à execução do Tiradentes, invocando doença, nesse dia foi visto de boa saúde no Rio de Janeiro, longe do local do “espectáculo”.

Em 1965, a ditadura militar promoveu o alferes a “Patrono Cívico da Nação Brasileira” e, no ano seguinte, impôs um modelo oficial para a reprodução de efígie do herói nacional: um santo laico, precocemente envelhecido, de cabelos compridos e o rosto talhado, evocação de um Cristo tropical.

Segundo o autor, Cruz e Silva, faleceu no Rio de Janeiro a 5 de Outubro de 1799, ocupando o lugar de chanceler da relação do Rio de Janeiro. Antes, em Janeiro do mesmo ano, acordara paralisado do lado esquerdo. O físico da Relação diagnosticou-lhe um estupor, receitando sangria e banhos de água fria.

 Foi sepultado na Igreja dos Capuchinhos, demolida no início do século XX, quando o morro do Castelo foi arrasado, dos ossos não houve qualquer rasto.

Oswald de Andrade, escritor modernista brasileiro atribuiu-lhe uma adjectivação muito negativa. A execução do Tiradentes fez de António Dinis da Cruz e Silva uma figura negativa na História do Brasil, apesar de só lá ter vivido 23 anos.

Não sendo um romance histórico, segundo o autor, e omitindo a documentação e os arquivos consultados, há acontecimentos e datas que são indiscutíveis e que não pertencem ao domínio da ficção. Sabemos que António Dinis da Cruz e Silva existiu. Sabemos que viveu em Elvas, que frequentou a casa do Falcato. Que esteve no Brasil e que foi um dos “executores” do Tiradentes. Teve o talento necessário para reavivar o que efectivamente existiu através de uma linguagem tersa. Em quase seiscentas páginas fez-nos um retrato de um Portugal do século XVIII, que poucos conheciam. Lembrou-nos que o retrato do bispo Lourenço Lencastre se encontra exposto no Museu de Arte Sacra, em Elvas. Viajámos pelo Nada que é tudo, pessoano, de Mário de Sá-Carneiro avivou-nos a memória com um pouco mais de Sol, eu era brasa. Muitos outro autores foram chamados à colação. Silva Gaio, Rui Knopfli e tutti quanti.

Quão belo é espreguiçar-nos em páginas onde a cada momento damos conta de que a Literatura Portuguesa é tão rica! E como é bom ter como cicerone alguém que nos ajuda a conviver com a língua, que nos faz distinguir dos outros: a portuguesa língua, à maneira de António Ferreira.

                     João Cabrita

Não foi adoptado o Acordo Ortográfico em vigor

João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo
João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo

João Cabrita
É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, Mestre em Didáctica da Língua e Literatura Portuguesas, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Doutorado em Filologia Portuguesa pela Universidade de Salamanca. Algarvio, residente em Trás-os-Montes, é docente.
Autor de “O Liceu Nacional de Bragança e o seu Patrono, uma história por contar”, “Paulo Quintela, um ilustre reconhecido ” e “Cem Anos do Clube de Bragança, no Centenário da República”.