Início Opinião João Cabrita Falando de …. Van Gogh

Falando de …. Van Gogh

A democracia concede-nos o direito de falar e de escolher. Dá-nos acesso à liberdade. O diálogo faz parte da comunidade. A palavra pertence-nos, a menos que apareça algum Ayatola a cercear-nos o que o pensamento dita.

COMPARTILHE
   Publicidade   
   Publicidade   

Voltar atrás faz parte do nosso existir, tentando, ao mesmo tempo, resistir à força destruidora que todos os dias nos avassala. Vamos preenchendo a existência, tentando concretizar objectivos que outros já ambicionaram. Conquistar e vencer, criando modelos, indo além dos arquétipos, é programa de vida para muitos de nós.

Ultrapassar, tentando a inovação, não claudicando, recusando o estar esgotado, continuando sempre, sublimando defeitos, experienciando o vivido, filtrando obstáculos, afastando-nos de males que tentam enfrentar-nos, faz parte do nosso existir.

A vida nem sempre é fácil. Difícil se torna à medida que caminhamos. Para alguns a meta é já ali. Enfeudados a grupos onde o nepotismo campeia, para esses o ruído não existe. Alcandoram-se a lugares cimeiros, conquistando troféus, são os sequazes do princípio de Peter.

João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo
João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo

É assim desde há muito. Em tempos de monarquia, o título e a ociosidade era privilégio herdado. A sinecura pertencia ao currículo. Muitos anos volvidos, as práticas não estão distantes. Televisão, rádio e jornais mostram-nos à saciedade.

A democracia concede-nos o direito de falar e de escolher. Dá-nos acesso à liberdade. O diálogo faz parte da comunidade. A palavra pertence-nos, a menos que apareça algum Ayatola a cercear-nos o que o pensamento dita. Torquemadas de tempos modernos a patinhar no lamaçal construído por si próprios, ainda existem. Brandindo o chicote que arvoram, ameaçam quanto podem, diante da intolerância de punho fechado. A irracionalidade no seu melhor à janela dos nossos olhos, para quem goste e se deleite. Afinal talibans de barbas por crescer há-os por cá.

No meio deste desvario, ainda existe quem não peca a esperança e que encontre sempre uma nesga aberta a uma hipótese para a compensação dos seus projectos. Há a capacidade de ser sempre melhor. De avançar sem desvario. Conquistar espaço e dar azo a que sonhos façam parte da auréola de cada um. Os nossos amigos ainda existem. São eles que estando connosco salvaguardam a condenação à esterilidade e ao tédio a que estamos sujeitos, aos atropelos que nos fustigam e à astúcia dos que nos esmagam.

E há a arte. O belo que nos compensa e inebria. Os homens e as mulheres que trouxeram o mundo para junto de nós, confortando-nos no sonho e no prazer da vida. Ficaram perto de nós, mesmo tendo-se afastado. Aconchegaram a nossa existência, tornando o universo mais unido, unilingue na sua pluralidade, não interessando países ou nacionalidades. Globalizaram o espaço para nos fazerem mais humanos e mais pessoas. Foi assim e continua a ser.

De entre os que à arte deram o melhor do seu talento, como se dessa arte fizessem parte, predestinados para um mundo melhor, cabe-nos citar Vincent Van Gogh que na imortalidade escreveu o que de mais notável existe na pintura recente. Holandês, de pátria, nasceu em Zundert, a 23 de Março de 1853, filho primogénito de uma família que gerou mais cinco filhos, cujo progenitor era pastor protestante, profissão que ainda tentou sem sucesso. E sem sucesso é, praticamente, toda a sua existência. Incapaz de constituir família, incapaz de custear a própria existência, vivendo quase sempre do auxílio que lhe prestava seu irmão Theo (Theodorus), quatro anos mais novo, mesmo incapaz de manter contactos sociais. Como pintor encontrou um meio de se opor à misantropia que o dominava. A arte era para ele uma forma de equilibrar a sua existência, onde não faltaram tentativas falhadas de suicídio, que o conduziram à morte a 29 de Julho de 1890, com 37 anos, em Auvers-sur-Oise, aldeia situada a cerca de 34 quilómetros a norte de Paris, quando o relógio acusava 1h e 30m da madrugada. Através de um revólver, conseguido por meios ainda hoje não esclarecidos, dispara contra si próprio em pleno peito.

De vida difícil e saúde periclitante, depois de passar por Inglaterra e Bélgica, Van Gogh, em 1886, decide-se pela França, habitando com o irmão. Renegando o Protestantismo que havia professado, blasfemando em relação aos valores do Cristianismo, em Paris frequenta o Moulin Rouge, cabaret predilecto do seu amigo Toulouse-Lautrec, onde renegavam o Cristianismo. Face ao himeneu do irmão, parte para o sul de França. Arles, na Provença é a localidade escolhida, onde produzirá em quantidade grande parte da sua obra. Não existe ninguém para criticar a sua pintura e aí aperfeiçoa a sua técnica pictórica. A solidão domina-o. A Casa Amarela que imortalizará através da pintura, será o local onde residirá, depois de tornar um espaço inabitável numa habitação relativamente acolhedora. Insistindo no convite a Gauguin, finalmente a 20 de Outubro de 1888, acompanha-o na sua estada em Arles; para o efeito abandonaria a mulher e os cinco filhos legítimos. Quando vende algum quadro, nunca se lembra de enviar qualquer importância à família. Van Gogh passa fome e vive na maior austeridade com a escassa mesada que Theo lhe proporciona.

Gauguin, de ascendência peruana, chegou a ser condenado judicialmente por defender os direitos dos indígenas explorados pelos colonos franceses. A amizade entre Van Gogh e Gauguin vai-se deteriorando. A 23 de Dezembro de 1888, Vincent corta a orelha direita e dá-a embrulha em papel de jornal a Raquel, prostituta preferida num bordel de Arles. Era noite de Natal de 1888. Gauguin parte para Paris, alegando que Vincent o tinha querido matar com uma lâmina de barba. Vincent é atacado por epilepsia. A morte é a única solução para os seus males físicos e psíquicos. Chega a ingerir o conteúdo dos tubos de tinta de óleo e a beber essência de terebentina e as cores que ele tanto amava. Lavagens ao estômago, alimentação a horas e repouso forçado no hospital psiquiátrico onde o internaram trazem-lhe de volta à vida. São desta época o auto-retrato onde se apresenta com a orelha direita envolta em pano branco. O quadro Ísis é executado em Maio de 1889, dentro do seu quarto do hospício psiquiátrico. Em Junho de 1889 pinta a “Nuit étoilée avec cyprès”, hoje exposta no Museum of Art, de New York, em que antecipa o Expressionismo e o Abstraccionismo.

Em 1890 expõe na galeria Les Vingt, em Bruxelas, recebendo uma crítica elogiosa no Mercure de France, mudando-se posteriormente para Auvers-sur-Oise, onde findará os seus dias, sendo aí sepultado a 30 de Julho. Após a morte de Vincent Van Gogh, Theo desejava dar a conhecer a obra do irmão, o que não levou a cabo por ter morrido de sífilis, meio ano mais tarde, tendo sido trasladado em 1914 para Auvers, onde ficou enterrado junto do irmão.

A mulher, Jo van Gogh-Bouger e o filho Vincent Willem, herdeiros da obra, administraram-na segundo os desejos de Theo, vendendo uma parte da colecção e o resto emprestaram-na para exposições, tendo publicado as cartas de Theo a Vincent, que fazem parte de um conjunto de 820 chegadas ate nós, documentando o percurso artístico, as suas motivações e lutas pessoais.

Depois da morte da mãe, Vincent Willem passou a cuidar da colecção, tendo criado em 1962 a Fundação Vincent Van Gogh que pôs as obras à disposição do Estado Holandês, sob a forma de empréstimo permanente. O Museu Van Gogh, abriu as portas em 1973, mostrando-se a construção de quatro andares exígua, devido à afluência crescente de visitantes.

O Museu van Gogh gere a colecção da Fundação Vincent Van Gogh: as obras de Vincent, as suas cartas e cadernos de esboços, correspondência familiar, colecção de arte de Theo, objectos na posse da família, tais como umas caixas de laca com modelos de lã que Van Gogh usava para as suas combinações de cores.

Só depois da sua morte, lhe foi tributado o reconhecimento que não lhe tinha sido outorgado ao longo dos tempos. Vincent, o mal-amado, tornou-se herói, à medida que a sua arte se estabelece e se afirma no universo pictural. Com uma conduta depressiva, por vezes irascível, a que se juntava um percurso sentimental de insucesso, é a pintura o seu modo de se afirmar perante a sociedade e a sua tentativa de equilíbrio.

De fracasso é a sua primeira exposição apresentada em Paris no restaurante Du Chalet, no Boulevard de Clichy, em 1887, com Toulouse – Lautrec, Bernard e Louis Augustin. Nada foi vendido, sendo a apresentação acompanhada de grandes discussões, conduzindo à troca das obras entre si. Cézanne observava que as pinturas de Van Gogh eram Obras de um louco.

Desistindo das várias actividades por que passara, encontra a sua vocação aos 27 anos. A pintura fascina-o. Vai aperfeiçoando as suas figuras, tanto no volume como nas posições. Procura apoio nos livros e noutros meios auxiliares. Instalado em Haia, gostava de retratar os habitantes, como os habitantes de um lar de idosos com os seus característicos casacos negros e chapéus altos. A vida dos camponeses foi o seu tema principal, numa +época de industrialização e urbanização crescentes, enaltecendo a vida honesta e simples dos trabalhadores rurais. Uma vida ligada à natureza com os seus ciclos de semear e colher de vida e de morte.

Andava pelos campos, desenhando e pintando os tecelões e camponeses, para além de paisagens e motivos do seu ambiente mais próximo, tais como o jardim da casa paroquial e a igreja antiga com o pequeno cemitério ao lado.

Vivendo de modo precário e cheio de dificuldades, propõe a Theo entregar-lhe quadros a troco da mesada que lhe enviava. São deste período 100 cabeças do povo, afirmando que não são retratos mas tipos de pessoas que labutam no campo desde há séculos. Segundo o irmão, era difícil vender as suas telas predominantemente sombrias, em Paris, numa época em que o impressionismo com as suas cores frescas e claras estavam a conquistar terreno. Nesta linha, aparecem “Os comedores de batatas” e muitos dos quadros retratando a sua vida familiar com mulheres com quem conviveu.

Em Paris, onde viveu quase dois anos, pintou muitas naturezas mortas com flores, mas também um par de sapatos gastos. Gostava de objectos pelos quais tinha passado a vida. Utilizava cores novas e mais vivas e sobretudo tons mais claros. Pintava muitos auto-retratos. Registava a vida citadina parisiense, pintando cafés, lugares de diversão e jardins. À procura do seu estilo próprio, experimentava técnicas de pintura, com cor, com o traço de pincel, linhas e planos. Trocava obras com outros artistas e exibia quadros.

Na Provença, encontrou a luz clara e o sossego que procurava, que comparava ao Japão devido à clareza da atmosfera e dos alegres efeitos da cor. Quando chegou a Arles, as amendoeiras começavam a florir por toda a parte, iniciando-se na pintura de pomares em flor e nas cenas das colheitas. Em 1888 pintou Barcos pescadores na praia de Les Saintes-Maries-de-la-Mer. A Casa Amarela decorou-a com quadros, entre os quais Os girassóis, de que tinha pintado cinco versões de tonalidades diferentes. Gauguin não lhe reconheceu o génio, embora Van Gogh apreciasse o quadro que foi vendido há uns anos por 25 milhões de dólares. Pintar à noite, ao ar livre, à luz artificial é um desejo supremo de Van Gogh. A noite é mais viva e mais rica em cores do que o dia. O seu ponto mais alto é a noite estrelada.

Um mês antes da sua morte, pintou “Campo de trigo com corvos”. Outras pinturas mais alegres terão surgido do labor do artista.

Deprimido, inseguro, receando sobrecarregar o irmão que o ajudava, ainda lhe resta tempo para ser triste ante a infelicidade que, dizia, ameaçava o irmão

Consta que em vida não vendeu mais do que um quadro. Adquiriu-o em Bruxelas, Ana Boch, irmã do poeta, Eugène Boch, por 400 francos. Chamava-se “A vinha vermelha”. Talvez não tenha sido o único, como frequentemente se afirma.

No quase anonimato partiu para se inscrever na imortalidade. Hoje, são muitos os que o desejam conhecer. E se personalidades como esta nos arrastam do quotidiano penoso e hostil para o mundo da tolerância e da vida positiva, não há como lê-los, vê-los e contemplá-los, para sermos mais perfeitos, melhores e mais solidários…

João Cabrita
Não foi adoptado o Novo Acordo Ortográfico