Início Opinião João Cabrita Falando de … A Filha de Almeida Garrett

Falando de … A Filha de Almeida Garrett

COMPARTILHE
Almeida Garrett
   Publicidade   
   Publicidade   

Nasceu no Porto. Furtou-se às tropas napoleónicas. Estudou em Coimbra. Em Lisboa fez Portugal maior. Andou pelo mundo. Foi um liberal a abrir as portas à democracia. Amante de corpo inteiro. À literatura deu o melhor de si preenchendo as mais belas páginas escritas pelo talento português. Na rate de amar não foi tão exímio.

Portugal consolidava-se na turbulência do poder disputado entre liberais e absolutistas. Serenavam-se os ânimos e Garrett passava de exilado a amante e afirmava-se como intelectual e político a dar lições aos vindouros.

Até hoje! Mau grado o ostracismo a que vão sendo votados os que nos deixam e as modas vão pondo nos pódios, aleatoriamente, os que o populismo consagra. E ainda se vai lendo prosa garrettiana. A escola não o esqueceu. Vai-se eternizando em Frei Luís de Sousa. Da lírica, salvam-se versos que vão escapando à fúria do esquecimento. Folhas Caídas alimentam paixões a que nos vamos dedicando em tempos primaveris da nossa existência.

E Garrett, de vida igual à nossa, restou. Lembremo-lo no avesso do seu esplendor literário.

Representava-se Catão, no teatro do Bairro Alto. Ele próprio personagem da sua própria peça. Era Setembro de 1821. Ele tinha vinte e dois anos. Ela, instalada num camarote da família de Paulo Midosi. Chamava-se Luísa Cândida Midosi. Teria entre treze para catorze anos. Apaixonaram-se. Casaram a onze de Novembro de 1822, na igreja de São Nicolau, em Lisboa. Incompatibilidade de génios e desproporção de inteligências, afirmam os biógrafos. Do casamento, nasceram dois filhos que não sobreviveram, em 1828 e 1831.

Garrett encontra-se separado de Luísa Midosi por convenção amigável e verbal desde Junho de 1836 e escritura de 10 de Outubro de 1839, proporcionando-lhe uma pensão compatível com os seus proventos de empregado público.

Em 1837, começa a relação de Garrett com Adelaide Deville Pastor, de dezoito anos. Geram dois filhos que soçobram prematuramente: Nuno, nascido a 25 de Novembro de 1837, vem a falecer a 9 de Fevereiro de 1839. O segundo filho nasce a 6 de Novembro de 1839, João, falece ao fim de quarenta dias, a 16 de Dezembro.

A 12 de Janeiro de 1841 nasce a filha Maria Adelaide, deixando a mãe gravemente doente, que sucumbirá à enfermidade, contando apenas 22 anos, em 26 de Julho de 1841.

Do assento de baptismo realizado na igreja da freguesia da Encarnação, em Lisboa, pelo prior João Carlos d’Andrade, em 15 de Março de 1841, consta que Maria é filha natural do Conselheiro João Baptista de Almeida Garrette (sic), sendo testemunhas o Conselheiro Joaquim Larchê, que também assinou como padrinho, e José Augusto Corrêa Leal. Como madrinha, Nossa Senhora. A escritura de perfilhação e legitimação da filha de Garrett data de 4 de Junho de 1842.

Uma tia de Maria Adelaide, D. Amália Deville da Costa Couraça, casada com Maximiano Saraiva da Costa Couraça, contestou em juízo que sua irmã Adelaide tivesse sido a mãe da filha de Garrett, no intuito de privar a sobrinha de herdar da avó, D. Jerónima Deville Pastor.

Órfã, muito cedo, passou a mocidade no colégio das Salésias, considerada uma das mais conceituadas instituições de educação.

Dos três filhos que lhe nasceram da sua relação com Adelaide Pastor, só lhe sobreviveu Maria Adelaide, a quem tratavam por Mimi. Ela era o encanto da sua existência, dedicando todo o cuidado a esta filha única, relicário guardado de uma felicidade que ele teimava em não perder. Educando a filha nos princípios religiosos que para si eram primordiais, escreve Garrett à filha:

Não te afadigues com este calor; não te apliques de mais. Eu não te
quero para doutora, só desejo que sejas boa, temente a Deus, que tenhas
modos de senhora, e que cultives honestamente a inteligência que Deus te deu.

De esmerada educação, bebida no Colégio que frequentava, não descurava a sua formação cívica, moral, religiosa e intelectual que a conduziria à mais alta sociedade, a que seu pai pertencia, ele que, merecidamente, chegaria aos mais altos cargos da governação, onde não lhe faltavam méritos que quotidianamente conquistava, para além da sua posição de líder na cultura pátria.

Em 25 de Junho de 1851, D. Maria II faz-lhe mercê do título de Visconde de Almeida Garrett em duas vidas, cuja segunda vida se verificará em quem se mostrar habilitado no juízo competente para suceder ao título. Logo que se soube da sua nomeação de visconde, não faltou quem se lembrasse do modo como ele tratou dos barões em Viagens na Minha Terra. Garrett, logo explicou que fizera o sacrifício pela filha, que não lhe pôde suceder, não obstante os sucessivos pedidos solicitados à rainha.

Nos princípios de 1853, D. Maria Adelaide entra para o recolhimento das Salésias, onde vai ser educada. Direccionando todo o seu afecto para esta filha, escreve Garrett em 6 de Novembro de 1853:

Minha adorada filha da minha alma…
Ganha a afeição de tuas superioras e mestras que são as verdadeiras mães
que Deus te deixou. Ama e teme a Deus e vive contente porque fazes
feliz o teu pai que te ama.
Não te esqueças nunca minha filha que os maus são sempre infelizes ainda
que o não pareçam. Adeus, estuda, teme a Deus e adora a verdade,
que enches teu pai de alegria e de gosto.
O teu quartinho será o melhor da casa e próprio para uma senhora como tu
hás-de sair daí.

Em Setembro de 1854 cai de cana, gravemente doente. Pulmões. Coração, baço e fígado, segundo o médico Francisco Martins Pulido, tudo estava esfacelado. Mandara a filha ir buscar Flores sem Fruto e que procurasse a peça intitulada, As minhas asas. Não lhe restaria muito tempo para se imortalizar no desaparecimento terreno.

Às dezoito horas e vinte e cinco minutos, de 9 de Dezembro de 1854, partira. Residia em Lisboa na Rua de Santa Isabel, 56. Vivera 55 anos, 10 meses e 5 dias.

Deixou testamento lavrado em Lisboa em 9 de Junho de 1853, nomeando universal herdeira, sua filha única, D. Maria Adelaide de Almeida Garrett, ainda menor de 13 anos. Declara Almeida Garrett, no início do testamento:

Depois de cinco anos separado de minha mulher, houve esta filha de uma
donzela honesta, hoje falecida, cujo nome oculto por consideração e respeito
para com a sua memória, e porque essa única fraqueza em sua vida recatada
e exemplar, terá merecido a esta hora a suprema indulgência, assim como
deve merecer a dos homens. Minha filha, D. Maria Adelaide de Almeida Garrett,
por mim reconhecida, e com o consentimento unânime de todos os meus
parentes, segundo as leis e estilos destes reinos de legitimação de sua majestade,
haverá tudo o que é meu e de que posso dispor, bens móveis de raiz, direitos
e acções, e nomeadamente a propriedade de todas as minhas obras já impressas
ou ainda inéditas, por todos os trinta anos que a lei garante, depois da minha
morte; a qual propriedade não cedi nem cederei a ninguém outro, nem fiz ou farei
sobre ela contrato algum, senão for pelo tempo de minha vida.

No testamento é nomeado tutor de D. Maria Adelaide, o Sr. Joaquim Larcher, e em sua falta o Sr. Carlos Krus.

Uma vez que Garrett não era divorciado de Luísa Midosi, não podia privar a viúva da meação na herança, que pugnou pelos bens a que tinha direito, tendo sido procedido com equidade. Pagas as dívidas existentes e feito o leilão do espólio, coube a cada uma das herdeiras a quantia de 4 063$950 réis.

À filha de Garrett, tratada por Viscondessa, pertenceu a propriedade literária das obras do pai, no que houve acordo entre as duas herdeiras que liquidaram todos os assuntos inerentes ao testamento em 1856.

Após o falecimento de seu pai, D. Maria Adelaide foi viver com sua avó, com quem Garrett mantinha as melhores relações, na Quinta da Buraca, o mesmo acontecendo em vida de Almeida Garrett.

Em princípios de Março de 1855, D. Maria Adelaide frequentava um colégio inglês, sito na Rua do Ferragial de Baixo, nº. 18 – 2ºandar, em Lisboa, contra a opinião de seu tio Alexandre.

Foi em Sintra, por volta de 1856 ou 1857, em casa de D. Maria Krus, frequentada por D. Maria Adelaide, numa soirée que se dá a empatia da filha de Garrett pelo Dr. Carlos Augusto Guimarães. Nascido em Lisboa a 15 de Janeiro de 1830, tomara o grau de bacharel em medicina na Universidade de Coimbra e cursara a Universidade de Bruxelas onde se doutorara em 1860 em Medicina cirurgia e partos, sendo adido da legação de Portugal em Bruxelas, sem vencimento. Morando em Lisboa perto da casa de Garrett, há muito que Carlos Guimarães conhecera D. Maria Adelaide, por quem nutria grande admiração, tendo encontrado correspondência nas suas idas a Sintra.

Tendo verificado o conselho de família da filha de Garrett a sua inclinação pelo Dr. Carlos Guimarães, resolveu reunir a fim de dar o seu consentimento e assentar as condições em que deveria ser concluído, segundo auto lavrado em Lisboa a 27 de Novembro de 1861. Acordadas as condições em que se deveria realizar o acto nupcial, ele teve lugar a 2 de Janeiro de 1862, na capela de Nossa Senhora da Lapa, no Lugar da Porcalhota , freguesia de Benfica.

D. Maria Adelaide esteve para casar com o primo Francisco Lopes Pastor, formado em Direito, o que não chegou a efectivar-se pelo falecimento de seu tio João António Lopes Pastor, avô de D. Maria Adelaide.

Maria Adelaide de Almeida Garrett e Carlos Guimarães estiveram casados trinta e quatro anos. Devido às constantes ausências do marido, é muita a correspondência trocada entre ambos, sendo variadas as formas de tratamento utilizadas, não fossem todas as cartas de amor ridículas, segundo Fernando Pessoa. Dela é possível ler: “meu bichinho”, “minha prenda”, “meu anjo”, “minha jóia da minha alma”, “meu menino”, “meu rico velhinho”, “meu amor”, “adorada prenda”.

Ele, por seu turno, usa termos, como “minha jóia querida”, “minha bichinha”, “mina querida mulherzinha do coração”, “minha queridíssima Mimi”

Numa das cartas que escreve, a partir de Sintra, pede-lhe “se puderes e tiveres tempo traz-me duma das livrarias do costume, um romance português, novo, escrito, por um homem chamado Gaio, que é médico, chama-se Mário, ou a revolução de 1820, é este o título pouco mais ou menos, creio que não é bem assim”

Do matrimónio nasceu uma filha em 6 de Junho de 1863, baptizada Maria (do Carmo), vindo a falecer em Santarém a 2 de Junho de 1866, tendo sido sepultada no jazigo de Manuel da Silva Passos, no cemitério dos Capuchos, em Santarém.

Maria Adelaide e o marido procuram publicar algumas obras de Almeida Garrett, daí ser natural que o jornal, A Revolução de Setembro, de 10 de Novembro de 1865 escreva, “Obras de Garrett – Parece que a senhora viscondessa de Almeida Garrett vai publicar as últimas obras do seu ilustre pai, o grande escritor do mesmo título”.

Apesar de Garrett ter desaparecido do mundo dos vivos, são muitos os seus livros publicitados nos jornais, graças ao interesse manifestado pela filha e pelo marido que não deixam de assistir em 1888, no Teatro de São Carlos à ópera D. Branc,a a partir do poema do mesmo título, pelo maestro Alfredo Keil..

E porque tudo finda, chegara a hora para D. Maria Adelaide. No dia 4 de Janeiro de 1896, na Rua do Carneiro, em Sintra, pelas 12 horas, falecia, em resultado de lesão cardíaca, atestada pelo Dr. Gregório Rafael da Silva de Almeida.

O falecimento da filha de Garrett deixou os seus amigos e pessoas das suas relações profundamente consternados. Seu marido, recordando a mulher, que o monopolizara, escreve à Duquesa de Palmela:

A existência da nossa saudosa Mimi era, há quase dois anos, tristíssima, miserável;
estes últimos três meses foram horríveis de cruel sofrimento para ela
As noites eram medonhas, eu deixava-a sempre depois das 6 horas da manhã.
saí do quarto eram três horas. Às 8 horas foram dizer-me que a Senhora que a
Senhora estava mal desde as 7 horas; quando cheguei ao pé dela já não me viu,
nem ouviu, e sem sofrimento, morreu era meio-dia.

O seu enterro foi acompanhado por toda a gente que há em Sintra. Foi vestida com o hábito de Nossa Senhora do Carmo. E a 15 de Abril de 1900, pelas onze horas da manhã, faleceu em São Martinho de Sintra, o Dr Guimarães.

Foram-se os vivos e os livros ficaram a atestar a existência daqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando….

E foram pesquisados, cento e vinte e um anos, após a morte de Maria Adelaide de Almeida Garrett:

Garrett, Memórias Biográficas de Francisco Gomes de Amorim, 3 volumes, 1881-1884

A filha de Almeida Garrett de Henrique de Campos Ferreira Lima, 1947

Nota: O autor não segue o acordo ortográfico.

João Cabrita ©Elvasnews/Arquivo

João Cabrita
É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, Mestre em Didáctica da Língua e Literatura Portuguesas, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Doutorado em Filologia Portuguesa pela Universidade de Salamanca. Algarvio, residente em Trás-os-Montes, é docente.
Autor de “O Liceu Nacional de Bragança e o seu Patrono, uma história por contar”, “Paulo Quintela, um ilustre reconhecido ” e “Cem Anos do Clube de Bragança, no Centenário da República”.

   Publicidade   
   Publicidade