Fazer florescer o que é único e nosso

Paula Freire, opinião
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À data em que escrevo esta crónica, 5 de Maio, comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. E com esta celebração, veio-me à lembrança um bem-humorado artigo, que li há mais de vinte anos, sobre as particularidades da nossa língua-mãe, escrito por Alice Cardoso, colaboradora da DIRIGIR, uma das publicações periódicas editadas pelo IEFP.

Ainda hoje recebo com regularidade esta revista e a verdade é que, quando se trata de letras, é-me quase impossível não guardar nas gavetas dos armários o que no momento tão bem foi apreciado, que na memória continua ainda guardado. Portanto, lá fui em busca do dito periódico que, como esperava, acabaria por encontrar debaixo de outros tantos, em jeito de convite para saciar muitas recordações.

E como uma lembrança puxa outra, apareceu-me o pequeno Simão que hoje é já um senhor mas que, na altura, do alto da sabedoria dos seus 4 anitos, sabia exatamente como deitar sobre o papel as palavras certas sempre que, por algum motivo, se zangava com os pais ou os irmãos mais velhos e lhes deixava, debaixo das portas dos quartos, mensagens escritas num português original, sem truques nem confusões.

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Do pensamento para as mãozinhas do Simão, tudo fluía de forma clara e exata. Para quem lesse, não havia que enganar. É que o Simão sabia muito bem, tal como dizia Alice Cardoso no seu artigo, que “istu d’isqcrever de carreirinha cem cualquer cinal de pontuasao tem seu qe de piturescu i bem ispirituozo purcue acim naum temos ninhum tarbalho a distribuir virgulas pur tudu cuanto é citio…”.

Fazer florescer o que é único e nossoTudo nos seria mais fácil sem tamanhas imposições de ortografia, quando os artifícios da nossa língua nos parecem dotados de uma tal confusão que melhor era enfiarmos um dicionário na cabeça, para não andarmos aos trambolhões nas palavras ou a escorregar nelas.

Ora, assim, ninguém se enganaria aqui no Norte quando, por exemplo, escrevesse “baca” em vez de “vaca”, ou os meus amigos aí em baixo, no Alentejo, colocassem no papel um “quêjo” em vez de um “queijo”. A simplicidade perfeita na escrita e na vida.

Mas não! De simples, o nosso português não tem nada. A culpa é dos nossos pais. Celtas, Bascos, Fenícios, Gregos, Românicos, Germânicos, Hebreus, Árabes… Deixaram-nos um rico legado lexical que se foi aprimorando cada vez mais com o passar dos tempos.

Pelo humor de Alice Cardoso vos mostro, então, apenas uns poucos entre os tantos que menciona, porque o espaço é curto, malabarismos desta nossa língua tão portuguesa que nos deixa de cabeça às voltas…

Vamos de VIAGEM, mas a família aconselha-nos: “VIAGEM com cuidado!” Ouvimos: o rato tinha ROÍDO o queijo, e ficamos sem saber se não terá RUÍDO. Se a Comissão aprovou a acta, será que a RATIFICOU ou RECTIFICOU? E se o tribunal lavrou ASSENTO, não terá lavrado ACENTO? A maré subiu: é PREIA-MAR ou PRAIA-MAR? Vamos baralhar um pouco mais. Por que razão o som ZE se escreve com S em BARONESA e com Z em RIQUEZA? Por que motivo o som CH também se pode escrever com X? MEXILHÃO, PECHINCHA, PACHORRA, CAIXA. Por que razão o som CE se escreve com Ç em AÇÚCAR, COM ss em ASSOLAR, com C em CIANETO, com X em TROUXERAM? Qual a justificação para a letra X ter o valor de CE em CÁLIX, de KS em TORÁX, de S em MIXTO, de ZE em EXACERBAR e de XE em PRAXE? Que confusão! (…) tenho a sensação de que DEMOLO (ou DEMOLIO? Ou DEMULO?) a vossa paciência quando EXTORCO agora (ou EXTORQUO? Ou EXTORQUIO? Ou EXTRUQUO?) estas aberrações da gramática. (…) Pitoresco se torna também quando se conjugam verbos como REMIR ou FLORIR no presente do indicativo, 1ª pessoa do singular: eu REMO (não, isso é do verbo REMAR!), eu RIMO (não, isso é do verbo RIMAR) (…) Agora, o verbo FLORIR: eu FLORO (ou será FLOIRO? Ou FLORIO?). Nada, o melhor é ir buscar a solução à gramática: FLORESCER quer dizer a mesma coisa. Então, eu FLORESÇO!

E sim, saibamos nós florescer com orgulho na língua de elevada riqueza que constitui a nossa identidade, falada por mais de 250 milhões de pessoas em todos os cantos do mundo.

Cheia de cambiantes musicais que definem povos irmãos e as suas culturas. E ritmos e tons que mudam ao sabor das regiões de um só Portugal. Lá escutamos a calma e serenidade do sotaque do português do sul, que alonga o olhar sobre a extensão das suas planícies, a par com a cadência movimentada da fala do português do norte que, à sua frente, descortina as montanhas que almeja subir.

A nossa língua portuguesa que tem a “saudade” como brasão. Palavra única, cuja definição apenas se alcança quando sentida nas vivências de uma cultura tão própria. Tão nossa.

Consigamos nós fazer florescer a língua portuguesa.

Como referiu precisamente há um ano, Ernesto Ottone Ramírez, Subdiretor Geral para a Cultura da UNESCO: “Uma língua de encontros. Na terra e no oceano”.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.