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Feiras há muitas…

Nós por cá pagamos a fatura por ter indefinida a responsabilidade na organização destes eventos. Uns são donos e senhores do espaço, mas tem várias imitações. Outros queixam-se de falta de liberdade de movimentos para fazer mais e melhor.

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Feira de Maio, Parque da Piedade ©Elvasnews/Arquivo
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O turismo está em crescendo, interna e externamente. A motivá-lo poderíamos enumerar diversos fatores: a melhoria dos acessos, a disponibilidade de meio de transporte próprio, o poder aquisitivo. E se o turismo cultural atrai alguns, o gastronómico move-nos a todos ou não fosse a gula um dos pecados capitais.

Nos últimos dias Portalegre foi capital dos doces. Ao Convento de São Bernardo acorreram milhares à descoberta da riqueza patrimonial que nos foi legada, construída na penumbra dos mosteiros de outrora, quiçá para levar um pouco de prazer às vidas dele desprovidas.

O certame atingiu a maioridade e afirma-se como motivo de atração de visitantes à cidade capital de distrito. À volta dele foi criado um conceito, com figurantes trajados a rigor, as indissociáveis freiras, com workshops para os mais novos, preservando as receitas tradicionais e divulgando-as, apresentação de livros e animação musical. À porta paga-se a entrada, mas ninguém o questiona, já está enraizado e nem por isso deixa de ter visitantes, gerando receitas que permitem investir no próprio evento.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Atrás dos doces vem os vinhos também cartão-de-visita de Portalegre, bem como outras atividades que, por estes dias, reinaram por aquelas bandas. Há visão. Há estratégia.

E nós por cá?

Veio-me novamente à cabeça a lacuna que constitui a inexistência de um certame que promova e perpetue a ameixa de Elvas. E quem diz a ameixa, diz a azeitona de Elvas, o sericá, bem como tantos outros produtos locais e endógenos. E porque não todos? Numa feira que potencia e dê visibilidade ao artesanato, às artes ancestrais, aos nossos produtos.

Por razões que desconheço, nunca a edilidade ou a associação comercial pensaram num evento assim, com prejuízo para todos. Não deixa de ser curioso numa cidade com a maior taxa de desemprego do distrito e sem grande tradição industrial. Alavancar os nossos produtos podia apoiar as microempresas, promover-lhes outras dinâmicas e dar outro impulso na economia local.

À porta está a Feira de Maio. A Confraria foi à Rádio Elvas, mostrando-se disponível em ceder gratuitamente os terrenos, num ato desesperado de dar um novo rumo ao evento que nos últimos anos sobrevivia pendurado da Semana da Juventude, este ano transferida para o Coliseu.

Saúdo a iniciativa dos senhores confrades ao abrir-se à sociedade civil, depois de décadas fechados detrás das paredes do Santuário. Oxalá a ideia resulte e nos surpreendam com um evento revitalizado e que poderá, desta forma, dar-lhe novo fôlego e nova razão de existir.

Resta saber o que se pretende que seja a moribunda Feira de Maio uma vez que o conceito está gasto. Atualmente os visitantes procuram outro tipo de atrativos em certames como este. Não bastam as quinquilharias, os têxteis ou os tradicionais carrocéis, tem de haver um mote.

Pretende-se que seja um mercado semanal (também ele a agonizar) de maiores dimensões?

Pretende-se que seja um evento que potencie as atividades elvenses?

Nós por cá pagamos a fatura por ter indefinida a responsabilidade na organização destes eventos. Uns são donos e senhores do espaço, mas tem várias imitações. Outros queixam-se de falta de liberdade de movimentos para fazer mais e melhor.

Enquanto isso, Portalegre certifica a sua feira de doçaria e afirma-a a nível nacional, dentro de dias Estremoz andará nas bocas do povo pela já reconhecida FIAPE e assim vai a vida.

Enquanto dura a quezília, a Feira de Maio já conheceu dias melhores, o mercado semanal é uma amostra do que já foi no passado, atraindo cada vez menos visitantes e deixando de constituir um ponto de oferta para a larga maioria dos consumidores e, mais dia, menos dia, o mesmo acontecerá ao São Mateus.

Duvidam?

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.