Elvas medieval
   Publicidade   
   Publicidade   

Opinião de Risoleta C Pinto PedroEstando os judeus na antiga Hispânia romana desde tempos imemoriais, situação decorrente da anexação da Judeia e da conquista e destruição de Jerusalém e seu Templo, é já na Alta Idade Média que começam a ser perseguidos a vários níveis. Curiosamente, é com a chegada dos muçulmanos que as coisas lhes começam a correr melhor, que vêem toleradas as suas tradições e a liberdade de culto, na condição de respeitarem as leis islâmicas e pagarem o imposto. Chegaram a servir de intermediários na remissão de prisioneiros cristãos em território muçulmano. No Alentejo, a sua presença é comprovada desde a Reconquista e após a conquista de Sevilha participaram no processo de repovoamento da Andaluzia. No início do século XII chegaram financiar a Ordem de Santiago no esforço de guerra contra os muçulmanos. A História dá muitas voltas e os inimigos de antes passam a ser aliados hoje. Contudo, algo (ainda) não mudou: as inseguranças em termos de sobrevivência, a necessidade de um território seguro a que chamar terra. Esta e outra informação podem ser encontradas em diversa literatura sobre o assunto, nomeadamente num pequeno e excelente caderno de apoio a quem visita a Casa da História Judaica de Elvas.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Perseguidos por romanos e cristãos e acolhidos por muçulmanos, acabam por mediar entre cristãos e estes últimos, e mais tarde apoiar financeiramente os cristãos contra islamitas. Parece tudo muito contraditório, mas reparemos no seguinte: para além dos séculos que separam os eventos, é em 1264 que servem de prestamistas aos guerreiros cristãos. Ora temos de olhar um pouco mais para trás para percebermos que nem tudo estava a correr sobre carris. Cinquenta anos antes (1215), o Concílio de Latrão obrigava a que os judeus se distinguissem dos cristãos usando uma marca distintiva, um sinal amarelo cosido no vestuário.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Mas há mais: já no século VIII, judeus e cristãos que viviam sob a Lei islâmica (Sharia) eram obrigados a usar um distintivo que identificasse as respectivas religiões. Estamos a falar de séculos muito recuados. Ainda que nos choque, precisamos de compreender que nós próprios somos fruto de uma evolução de séculos entretanto havida. Já começa a ser esquisito admitir e aceitar que após a Revolução Francesa no século XVIII e a emancipação dos Judeus no século XIX, com o desaparecimento da obrigatoriedade da identificação, na Europa, tenha vindo a ser reposto o distintivo em pleno século XX. Em plena Europa.

marca distintivaVoltando ao ano 1264, tinham os judeus todas as razões para necessitarem estar nas boas graças da religião dominante. Contudo, há que assinalar que Portugal se distinguiu, mesmo contrariando a Santa Sé (o que já é um apanágio do reino) pela tolerância em relação a esta e outras medidas. É só em finais do século XV que Portugal, através de D. Manuel (1496) segue a tendência dominante ordenando que deixassem o reino e estabelecendo um prazo para o fazerem, caso não aceitem a conversão. Alguns partiram, outros ficaram: os cristãos-novos. Sempre olhados com desconfiança acerca da sua sinceridade. O que, de certa forma, se compreende. Dificilmente uma conversão forçada poderia ser sincera.

FerreirosRelativamente à presença de judeus em Elvas, sabendo-se, por informações dispersas, da sua existência, apenas a partir do século XV a documentação é mais significativa, nomeadamente um episódio em que alguns judeus com o ofício de ferreiros se queixam ao procurador do concelho que alguns outros ferreiros iam sair ao caminho dos fornecedores de carvão para se abastecerem, e assim o carvão já não chegava a Elvas, impedindo-os de trabalhar. Isto, no início do século XV. Em meados do mesmo século há referência a seis ferreiros. Um deles com apelido Ferro e outro com apelido Verdugo. Curiosamente, recordo que havia, em S. Vicente, minha terra natal, e certamente haverá, provavelmente dispersa por Portugal e pelo mundo, uma família com esse apelido. Creio que o senhor se chamava Francisco (Chico, assim conhecido, tenho nos ouvidos a voz do meu pai, da minha avó, pronunciando este nome), não me recordo da profissão, mas não creio que fosse ferreiro. Teria uma loja? Por outro lado, um meu tio-avô que ainda tive a alegria de conhecer, por casamento com uma tia da minha mãe, também gratamente viva na minha memória com seu sorriso, pai e mãe do meu estimado primo João Branco, tinha a profissão de ferreiro. Ferreiro ou soldador, que creio não ser muito diferente. Recordo a oficina e sobretudo o cintilar das chispas de fogo com seu característico som. Ecos de tão longe. Da minha infância, sim, mas principalmente da nossa infância enquanto país, em que os ferreiros tinham nome de ferro e os verdugos usavam o nome daqueles que os oprimiam. Que passado de fogo ocultará o apelido de tantos Ferreiro(s) que neste país existem? Curiosamente, não me recordo, no meu Alentejo de menina, de alguém com este apelido. Sinais de prudente ocultação, encriptação tão característica dos cristãos-novos? Por causa das tais marcas distintivas… Que nunca se sabe quando poderão regressar…

Artigo anteriorOrçamento Municipal de Elvas de 30,8 milhões de euros para 2021
Próximo artigoMortes, sequelas e morbilidades. Conhece a gravidade de uma Pneumonia?
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.