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Figura tutelar

©Risoleta C Pinto Pedro

Quem vai de Vila Fernando para Santa Eulália depara, mais ou menos a meio do caminho, à sua esquerda, com uma pedra grande cuja forma faz lembrar um cão ou um animal pré-histórico e ainda uma imagem do imaginário da literatura infantil. É uma zona de caça, pelo que em determinadas alturas é necessária alguma coragem para pararmos, sairmos e dirigirmo-nos ao altar quase animado e ouvirmos o que o silêncio da pedra tem para nos dizer por entre o som dos disparos. Umas vezes encontra-se rodeada por ervas secas, outras por papoilas festivas. É sempre bela, a figura animalesca que, contudo, parece tão familiar. Quando vou a Elvas, a São Vicente, a Santa Eulália, não posso deixar de visitá-la, é paragem obrigatória, como quem se senta perante um nicho do caminho ou à soleira da porta da casa de avós. As casas ainda existem, mas já passaram para outros donos. Esta pedra no meio do campo é uma espécie de certeza da continuidade da vida, do legado dos que partiram, da responsabilidade dos que ficam, perante a testemunha tão neutra quanto austera que é a pedra animal respirando de tempos a tempos, mas sempre sólida, sempre presente, sempre viva. Esta pedra dá-me a mão como pai, acolhe-me como mãe, espera-me como avós, olha-me como Deus. Discreta e firme.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Umas vezes fico frente a ela em diálogo mudo, outras afago-a com as mãos como a animal de estimação, outras ainda tento trepar-lhe para o dorso, como criança sobre pedra grande, que eu também sou, que ela também é. Não sei quem a pôs ali, desconheço quem, para além da chuva e do vento, a moldou, ou quem mandou que a fizessem assim, não faço a mais pequena ideia desde quando ali está, mas imagino-a, sem dificuldade, muito, mas muito mais velha do que eu. Acredito que me viu passar por ali muitas vezes, há muito tempo, no coração do meu pai, no ventre da minha mãe, muito antes de eu poder saber da sua existência. E até da minha. Preexiste ao meu mundo, talvez a todos os mundos. Talvez tenha esperado por mim anos e anos… preciso, por isso, de ir revisitá-la em breve, como quem vai tomar um refresco com uma amiga de sempre. Para sempre.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.