Filhos de Um Amor Maior

Paula Freire, opinião
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Tenho 7 anos e ando na escola. Sinto-me só.

Aqui na vila, os outros meninos olham-me de lado e, por vezes, apontam-me o dedo como se eu fosse um ser estranho. Se calhar, sou mesmo estranho… Sou diferente deles! Isso deixa-me triste, afasta-me de todos…

Quando vivia lá na cidade, as coisas não eram bem assim. Os outros meninos brincavam comigo no jardim do bairro onde morávamos. E até havia o Juca, que era muito meu amigo e jantava muitas vezes em minha casa, depois de passarmos a tarde a jogar à bola.

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O Juca não sabia quem era o seu pai. A mãe dele também não sabia. Contou-me que a mãe, há uns anos atrás, decidiu que queria ter um filho. Mas não gostava de homens por perto porque estava cansada deles. Já tinha sido casada três vezes e “nunca tinha dado certo”, como ela dizia. Um dia foi a um hospital, lá no país onde vivia, e fizeram-lhe uma espécie de operação. O Juca achava que tinha sido nesse dia que o tinham metido dentro da barriga dela. Depois veio para Portugal e disse aos pais que ia ter um filho e que seria um rapaz. Alguns meses depois, o Juca nasceu.

Ele costumava ser brincalhão. Divertíamo-nos muito! Só que uma vez encontrei-o a chorar às escondidas. Insisti tanto para ele me contar o que tinha acontecido, que acabou por me confessar que ele também gostaria de ter um pai, como todos os outros meninos que nós conhecíamos e que andavam na nossa escola.

Nessa altura não compreendi muito bem o Juca porque eu também não tinha pai e nunca me apetecera muito ter um. Mas… Bem, pelo menos, eu sabia quem era o meu pai. Lembro-me que quando era mais pequeno, ele vinha visitar-me algumas vezes e trazia-me brinquedos, chocolates e cromos de futebol. Um dia até me ofereceu um telemóvel. Mas não o usei para conversarmos, porque nunca me telefonou. Depois, foi viver para a Suíça e casou com uma mulher. Desde então, nunca mais o vi ou falei com ele. Para dizer a verdade, também não sinto muito a sua falta…

Desde que o avô morreu e a mãe veio viver para a vila para ficar perto da avó, é que as coisas mudaram e comecei a sentir-me esquisito.

No outro dia a Catarina, a minha irmã que tem 15 anos, estava zangada comigo e disse-me que a mãe não gostava de mim. Que eu nem sequer era para ter nascido e que isso só aconteceu para que ela não morresse. E que foi por isso também que o pai se foi embora e casou com outra mulher. Eu era o culpado de tudo!

A mãe ralhou muito com a Catarina e veio conversar comigo. Disse-me que me adorava, que eu já era um homenzinho e, por isso, iria compreender muito bem o que ela me ia contar. Falou-me que quando a minha irmã era mais nova, ficou muito doente e o médico lhe disse que ela iria morrer. A mãe não pensava ter mais filhos mas, quando soube da notícia tão horrível, resolveu ter outro filho para salvar a Catarina. Parece que quando eu nasci, nos fizeram uma operação e tiraram uma parte do meu sangue e deram-no à Catarina. Assim, ela não morreu. A mãe diz que eu salvei a vida da minha irmã. Sou um herói e devo orgulhar-me muito disso. Mas eu sinto-me triste porque sei que a mãe pensou em tudo sozinha e não contou nada ao pai. Ele só soube quando ela já estava grávida.

Penso que ficou muito zangado com ela e comigo também. Afinal, até se foi embora e tudo, e nunca mais me quis ver. Todos os meninos da minha escola têm um pai e uma mãe e falam muito deles à professora. Eu não tenho grande coisa para contar sobre o meu pai, a não ser que ele deixou a mãe e casou com outra mulher por minha causa. Quanto à mãe, o que posso dizer sobre ela? Nem sequer queria ter mais filhos! Acho que não sou mesmo muito importante…

Filhos de Um Amor MaiorComo não podia falar sobre estas coisas com mais ninguém, contei tudo isto ao Chico porque pensava que ele era agora o único amigo em quem podia confiar. Mas não era. O Chico foi contar à professora e a todos os meninos da escola. Todos os dias eles olham para mim como se eu fosse de outro mundo. Sinto-me triste e muito sozinho. Mas a mãe anda tão ocupada que não repara em nada! Ou, se calhar, não quer reparar…

Mas sabes uma coisa? Na semana passada entrou uma menina nova para a minha turma. A Cynthia veio dos Estados Unidos da América, com a a mãe. E sabes que mais? Contou-me hoje um segredo. Só posso contar-to a ti porque sei que não vais dizer a ninguém e eu quero muito que ela seja minha amiga.

É um bocadinho confuso, mas vou tentar explicar-te. A Cynthia acha que a irmã dela é que é a sua mãe. E a mãe, será a sua avó. É que a irmã da Cynthia já tem 38 anos e a mãe tem 59. A irmã nunca se casou e vive numa cidade onde trabalha muito. Como está sempre bastante ocupada, não vem visitar a família. A mãe também nunca casou, mas há nove anos começou a namorar com um homem que conheceu lá nos Estados Unidos e que nasceu aqui na vila. Então, decidiram vir morar para cá. Uma vez, a Cynthia descobriu que quando nasceu, a mãe, afinal, não podia ter filhos por já ser um pouco velhinha…

Eu não fico feliz com a descoberta que a Cynthia fez. Mas sabes, para além de talvez conseguir vir a ter uma nova amiga, a história dela faz com que a minha vida me pareça menos triste. No final das contas, é uma história pior do que a minha: se nunca soube quem era o seu pai, agora também já não sabe quem é, realmente, a sua mãe.

Sem críticas, sem julgamentos.

Apenas e só: todos precisamos de acreditar que somos filhos de um amor maior…

P’lo Dia Internacional dos Direitos das Crianças: 20 de novembro de 2021

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.