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Havia, em Santa Eulália, uma menina especial. Tinha, sensivelmente, assim me parece, mais oito ou dez anos do que eu. A minha memória dela é confusa e mistura o que poderá ser recordação, com o que é relato posterior, repetidamente ouvido.

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Tenho uma ideia vaga de uma casa com quintal, a minha, e de uma menina pelos seus dez anos que gostava de andar comigo ao colo. Nessa altura, para mim, nada de mais normal. Mais tarde soube que essa menina via nascer o sol. E atendia pessoas que a ela recorriam por problemas de saúde. Nunca, nem ela nem os pais, receberam dinheiro por isso. A mim, receitou-me chá de folhas de oliveira feito com água de uma dada nascente, que o meu pai ia buscar, de bicicleta. Não sei que doença era a minha, mas talvez se tratasse de alguma luta interna… Esta menina tinha nome de luz e receitou-me paz. Em forma de folhas de oliveira.

Uma outra forma de arte. Picasso desenhou a pomba com um raminho de oliveira na boca. A menina colocou o raminho no meu copo e daí dentro do meu corpo. Talvez fossem estas folhas e a água que o meu pai ia mungir directamente da terra, que nos piores momentos da minha vida sempre ecoaram com um som pacífico e amoroso. Hoje, moro numa rua com Olival no nome. E nunca estive tão em paz. Quando a “menina Luz” nasceu, contaram-me recentemente (obrigada, querida Graça), apareceu uma sombra num espelho. É natural. A luz atrai a sombra. Porque a sombra sabe que é sombra, isto é, que não existe. Para que seja, precisa de se fundir na luz. A menina via nascer o sol para iluminar a luz que era a saúde dentro de cada um. Quando não assistia ao nascer da estrela, não conseguia tratar. Talvez porque, nesses dias, ganhasse a sombra. Aparentemente.

Provisoriamente. Neste combate desigual, o vencedor é antecipadamente conhecido. E não há forma de o vencer. Apenas adiar a vitória. Ainda bem. Ainda hoje, quando bebo chá de folhas de oliveira não consigo não o fazer sem uma certa reverência e respeito, quase ritualmente, e recordo dois momentos: o meu pai, já silenciosamente doente, mas ainda capaz de sair do carro para apanhar um raminhos de uma oliveira para levar para casa, e uma foto que dele fiz, já nesse período difícil de decadência, com a minha mãe, sob a oliveira junto à Igreja de S. Vicente, regressados onde tinham casado tantos anos antes. Sob os bons auspícios da árvore da paz.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.