Fumos de cachimbo com f de fake news

Júlio Roldão, jornalista
Júlio Roldão, jornalista
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Há quase um século, mais precisamente em 1929, um pintor belga, René Magritte, concluía um dos quadros mais famosos do surrealismo, um óleo sobre tela de dimensões médias (63,5 × 93,98 cm), o celebrado quadro “Traição das Imagens”, obra onde, sob um cachimbo de estilo realista, o pintor pinta a frase Ceci n’est pas une pipe, ou seja, em Português, Isto não é um cachimbo.

O quadro, que actualmente pertence à colecção do Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA), é uma visão crítica do “racionalismo” recusando a convenção enraizada de identificar uma imagem de uma coisa com a própria coisa. Uma pintura de um cachimbo não é um cachimbo, é apenas uma pintura.

Dir-se-á que Magritte nega aquilo que a esmagadora maioria das pessoas reconhece estar a ver. Mesmo sendo evidente que aquilo que estamos a ver no quadro é apenas a representação de um cachimbo e não um cachimbo verdadeiro. Mesmo sendo evidente que tudo isto é rigorosamente verdade…

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Jogando com tudo isto, muito antes de estar envolvido no programa de promoção da literacia mediática desenvolvido pela Associação Portuguesa de Imprensa (API) através da Academia MediaVeritas, eu colei numa pequena base de madeira um cachimbo verdadeiro, que touxera da minha adolescência, e legendei a obra, dita de técnica mista, com a frase “Isto é um cachimbo“.

Infelizmente, não sei por onde andará essa minha técnica mista com o meu velho e desactivado cachimbo, o que dificulta a tarefa de comprovar os factos  na abordagem a que me proponho nestas reflexões em torno do fenómeno da desinformação. Uma realidade também denominada de fake news (notícias falsas) e alimentada, dizem, por complexos algoritmos que sabem seduzir muitos dos nossos impulsos, nomeadamente os próprios de um consumidor.

A propósito de cachimbos. Será que inventei ou existirá mesmo o livro ” A arte de bem cachimbar a todo o fornilho” ? Às vezes a nossa mente transforma o irreal em real. É por isso que o passado também pode ser muito incerto. Há até quem diga que o passado é mais incerto do que o futuro. Tenho de voltar a este tema, muito em breve.

Júlio Roldão
Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.