Gritos no Silêncio

Paula Freire, opinião
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Aproximou-se da porta ao fundo do corredor. Parou, encheu o peito de ar como se a seguir fosse soltar a respiração, levemente, para se fazer entender.

Observou, curioso, a citação inscrita numa forma de cerâmica afixada na madeira: “falar é uma necessidade, ouvir é uma arte” – Goethe.

E sorriu. Porque sorrir era tudo o que conseguia fazer quando percebia que existem pessoas que, com a profundidade do olhar e um toque da mão, nos transformam o cansaço de um inverno tenebroso no mais inesperado milagre.

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Para ela, quando a porta se abriu, foi imprevisto o rosto que surgia. Não o identificava e ele compreendia a razão. Não era a mesma pessoa.

Do cabelo em desalinho, sujo e inquieto, às roupas completamente desleixadas que envergara nesse outro tempo (como em tantos e tantos dias e meses anteriores), até ao momento, muitos sóis haviam começado a brilhar-lhe no canto da alma. Agora conseguia estender os braços e voar numa leveza de pássaro que descobre a liberdade, ontem prisioneira do seu corpo.

Ela sarara-lhe o sofrimento e a amargura com um simples gesto que ele guardou como quem recolhe em si uma música perene.
– Sei que não me reconhece. Mas saberá quem sou quando ler o que vim entregar-lhe. Naquele dia, tinha-o comigo, escondido no bolso do casaco. Deveria ter sido uma despedida, mas a sua mão salvou-me. Demorei vários anos a reencontrá-la, mas aqui estou. Gritos no SilencioUnicamente para lhe dizer uma única palavra: obrigada.

Estendeu-lhe um envelope. No interior, o mistério da visita e todas as suas dores.

– A minha vida só estava adormecida. Sabe, às vezes, apenas precisamos de uma asa que nos console.

(…)

Já nasci com o mundo pequeno dentro de mim.

Poderia ser a pessoa mais solitária do universo. Uma entidade sem alma que desaprendeu de se amar.

É isto, estar vivo no mundo e não nos sentirmos sequer um fragmento dele. A impressão de finitude a cada adormecer do dia e em cada instante todas as emoções sem nome, ocultas, desgovernadas, devoradas à pressa na melancolia dos minutos que soam infinitos, abandonadas à sua sorte.

A dor é como um salto por entre a escuridão da noite e o tempo, somente estranhas e vagas sensações comprimidas no vácuo, a lutarem entre si num campo de batalhas.

Os espelhos são gelados e estão vazios da minha presença. Uma ausência indefinida que não consigo explicar. O coração arde-me como se estivesse sepultado no meu corpo.

Em todo o lado, os silêncios e o vazio. Os silêncios que moram no fundo de todos os ruídos. Os silêncios que suspiram em mim como ruínas mortas.

Não me resta qualquer alento, qualquer bálsamo. As horas arrastam-se com um sabor ácido de eternidade.

Viver é como saltar uma vírgula após outra, empurrado pelo avanço teimoso e cada vez maior de um parágrafo, até ao exato momento do ponto final.

Hoje, sou um náufrago à deriva. Um anónimo na sua própria existência. Ninguém vê. Ninguém quer saber. Vivem para lá do muro, atrás de folguedos instantâneos e ocos, um carnaval de felicidade mascarada. Amargo disfarce de todas as quedas. Têm pavor de que a minha solidão os contagie. Preferem fingir que ela não os visita, também, todos os dias.

Às vezes, a realidade é apenas demasiado.

Hoje, a vontade parou de viver.

Gostaria tanto de ter conseguido medir a quantidade de vida que poderia ter existido dentro de algum abraço que ficou pelo caminho.”.

10 de setembro, Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.
Comemoração iniciada em 2003, por iniciativa da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio e apoiada pela Organização Mundial de Saúde.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.