Movimento comunal
   Publicidade   
   Publicidade   

Em tempo de eleições democráticas, vale a pena reflectir sobre a nossa história.

   Pub 
   Pub 
   Pub 

A revolução comunal assumiu na Idade Média uma importância determinante em termos de transformação social em longo conflito com os bispos e os poderes laicos, detentores das terras.

Foi um lento preparar do acesso do povo aos direitos políticos: o processo passou pela apropriação do solo, a condensação em grupos, e a renovação económica com a formação de novas classes e as lutas dos concelhos pelas suas aspirações. Se este fenómeno ou revolução comunal aconteceu na Idade Média um pouco por toda a Europa, em Portugal assumiu uma forma particular. As comunas desempenharam já então, tão cedo, a marcha para a democracia.

Segundo Cortesão, «em Portugal é do próprio movimento das comunas que vai nascer o conceito da Nação».

É o que irá comprovar cientificamente, esta sua concepção democrática da história, ancorada em factores geográficos, económicos e políticos, mas extraordinariamente deste modo acabando por desvendar os factores profundos, ou espirituais.

Interessa-lhe sumamente  «discriminar até que ponto as puras razões de espírito e a vontade consciente dos homens influíram nos acontecimentos.»

Algumas circunstâncias favoreceram o processo nacional, nomeadamente o facto de a formação de Portugal acontecer durante o processo europeu de renovação económica; e a precariedade da segurança nas povoações por causa das longas lutas de conquista com os Muçulmanos favoreceu que os reis concedessem facilmente cartas de foral sem necessidade de levantamento armado; tratava-se da necessidade de fixar populações nos territórios conquistados. Claro que houve revoltas, como em Coimbra e no Porto, mas nos primeiros séculos da nacionalidade quase parece haver uma aliança entre a coroa e as cidades, na luta contra os privilegiados, principalmente contra o clero. Durante o reinado de Afonso III desapareceram, segundo Cortesão, «os últimos vestígios da servidão pessoal» e nas Cortes de Leiria de 1253 já estão presentes os procuradores do povo. Em 1269 estabelece-se uma aliança de facto entre o rei e os concelhos, que o apoiam na luta contra o clero. Foi junto ao mar e no Sul do país que o movimento de emancipação popular, dada a multiplicação dos concelhos, uns já existentes, outros acrescentados, foi mais longe. A população, mais concentrada, favoreceu este movimento, assim como teve algum peso a mais fraca influência de tradições romanas ou neocristãs.

Talvez isso, acrescentado a fenómenos mais recentes, explique, juízos de valor à parte e reconhecendo os erros e os excessos que houve, a designada “reforma agrária” após a revolução de 74 e, desde que me conheço, uma atitude de nobreza nas pessoas do povo que, independentemente da fé que os habita ou move, essa inquestionável, mas muito interna e silenciosa, não tem permitido, ao longo de muito tempo, uma submissão à instituição religiosa, ao contrário do que se veio a verificar no norte. Este orgulho, hombridade e sentido de independência é visível até no porte físico com que se mostram as pessoas, em qualquer aldeia do Alentejo. Não nego, com isto, a dignidade aos naturais das outras regiões, mas é aqui no Alentejo, e basta-me lembrar os meus avós, que noto uma maior insubmissão, independência e sentido de liberdade. Que, pelos vistos, já vem de longe. Do tempo da nacionalidade.

Artigo anteriorElvas integra projecto de circuitos de observação de aves
Próximo artigoElvas: Postos de Turismo têm novo horário de funcionamento
Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.