Início Opinião Graça Amiguinho Histórias de amor à Alentejana

Histórias de amor à Alentejana

COMPARTILHE
   Publicidade   

Não considero os Alentejanos uma gente superior a qualquer outra mas tenho a imensa alegria de constatar que, na planície abrasadora de verão e gélida de inverno, se moldaram personalidades bem definidas e de uma beleza inconfundíveis.

Nos longos serões passados na minha linda Aldeia, tão branca como a açucena e enfeitada de laços mais azuis que o azul do céu, outros mais dourados que as pesadas espigas de trigo ou ainda mais avermelhados que o pôr-do-sol escaldante de agosto, sentindo na face a brisa suave e reconfortante em amena cavaqueira com amigas de infância e outras mais recentes, ouvi as mais belas histórias de amor, merecedoras de tema para uma melodia ou um filme.

Poderei dizer que são mais apaixonantes que vidas de princesas. São “Aldeanas” de alma cheia, corações puros e delicados.

Hoje contar-vos-ei a história da Maria Rosa, filha de um pastor, personagem amorosa e delicada, nascida na década de quarenta, nesta altura já viúva mas de uma nobreza e ternura que tocou o meu coração.

“Canto a minha terra, a minha gente ! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

O percurso de vida de uma jovem desse tempo, na minha Aldeia, passava por frequentar, após terminar a 3ª classe, a Obra das Mães para aprender a bordar e a cozinhar. Assim foi também o começo da Maria Rosa. Dali seguiu para uma oficina para aprender costura com um alfaiate.

A Maria Rosa fez-se mulherzinha e, apesar da sua timidez, sonhava como todas as raparigas, encontrar o seu príncipe encantado.

Numa noite de S. João, porque é tido como o santo casamenteiro e a ele estão associados muitos rituais para encontrar namorado, a Maria Rosa colheu umas rosas do seu pequeno quintal, colocou numa bacia para no dia de S. João cumprir o que lhe haviam ensinado.

Dizia a tradição que, logo pela manhã , a água das rosas devia ser atirada para a rua e, ao primeiro rapaz que passasse lhe fosse perguntado o nome , nome esse que seria o do seu amor para a vida.

Assim fez a Maria Rosa! Passou um rapaz a quem ela perguntou, cautelosamente, o nome. O jovem olhou-a com um olhar muito especial e respondeu-lhe que se chamava Manuel!

No pensamento da Maria Rosa não mais se apagou aquele nome que, pelo destino e por milagre de S. João, lhe estaria destinado a acompanhar o seu.

Passaram tempos e nada de novo se passava. O jovem Manuel não vivia na Aldeia, estava fora e não aparecia nenhum possível namorado para a nossa Maria Rosa.

Certo dia, qual não é o espanto da Maria Rosa? Batem à sua porta e quem vê ela? O Manuel.

Ali estava ele dizendo que nunca mais a tinha esquecido e que vinha falar com ela pois desejava tê-la por companheira para sempre.

A Maria Rosa não ficou muito convencida da proposta pois, diz ela, não o conhecia e, apesar de não lhe desagradar, não sentia nada de especial por ele.

Mas o Manuel não desistiu de continuar a procurar a Maria Rosa. Ela começou a nutrir por ele simpatia e afeição pois era um rapaz muito educado e sensível.

Rapazes que viviam nas cidades gostavam de procurar noiva nas Aldeias por verem nelas ingenuidade e pureza de sentimentos.

E assim começou a história de amor da Maria Rosa e do Manuel. Ele soube sempre respeitar os princípios dela e foram muito felizes até que a morte os afastou temporariamente porque amores assim nunca morrem.

Hoje a Maria Rosa vive com o seu filho único, um jovem bondoso como os pais. A minha amiga continua sendo uma mulher feliz, realizada, livre, moderna, sem pesadelos nem tristezas. Vive uma vida com o mesmo encanto e doçura de sempre porque a sua alma permanece menina e cheia de esperança.

S. João continua perfumando o seu caminhar ligeiro com água de rosas.

Vale a pena conhecer gente assim!

   Publicidade   
   Publicidade   
   Publicidade