Hoje são eles, amanhã, quem será?

Realidade e ficção

Opinião - Graça Amiguinho
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Ninguém diga, que está a salvo!

Não queremos imaginar o que seria de nós, se os nossos vizinhos espanhóis recuassem no tempo e pensassem apoderar-se de Portugal ou se os muçulmanos quisessem voltar à Europa.

O que os Ucranianos estão a sofrer faz-nos doer a alma!

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Soam as sirenes, avisando que é urgente toda a gente se refugiar nos abrigos.

São jovens, crianças e idosos, numa angústia desmedida, correndo, como podem

O terror veio bater-lhes à porta.

Os tempos de paz e alegria fugiram, num só dia.

A ansiedade, a incerteza e o medo de perder a vida e ver morrer, tomaram conta de todos.

O inimigo, impensável, porque nada fizeram para que fossem tão brutalmente atacados, enfureceu-se e procura destruir, arrasar, matar, para reinar, para dominar.

Mais parecem estar vivendo um filme de ficção, que se tornou uma realidade, tão próxima e dolorosa.

Já não há lágrimas para derramar. A tristeza absorveu tudo. Nada lhes resta, senão esperar a hora de partir, ou morrer, debaixo dos escombros que as armas mortíferas deixam.

Mas não desanimam.

Refugiados ucranianosReúnem numa mochila, o indispensável para as primeiras horas de debandada e o resto, Deus dirá, como será.

As crianças ficam atónitas, pois não conseguem entender o porquê desta fuga, a razão do silêncio, a tristeza espelhada no olhar dos pais, que se separam com os corações partidos.

YANA é a filha mais nova de um casal que vivia confortavelmente numa linda casa, na cidade de MARIUPOL.

O pai, YROSLAV é médico pediatra e a mãe, NADEZHDA é professora de música. Ela frequentava a pré primária e sente imensa falta das suas amigas, com quem brincava. Não esquece a sua linda professora, a jovem KATYA, com quem viveu momentos muito bonitos.

Tem um irmão, com 15 anos, o PAVLO, que não teve que ficar junto do pai para defenderem a sua cidade, do ataque ignóbil do inimigo russo, por ser um adolescente.

Às costas, carrega a sua guitarra, fiel companheira, que toca com arte e encanto.

Nas primeiras noites, ficaram na cave de uma igreja, juntamente com outras famílias.

Com eles levaram o seu pequenino cão, que sozinho, morreria, ao abandono.

O pároco, RUSLAN, é um jovem que dedicou a sua vida a ajudar os irmãos que sofrem.

A vontade de conversar é pouca, mas é preciso partilhar o sofrimento com outras famílias e encontrar a força necessária para enfrentar momentos tão estranhos e perigosos.

Encontraram um lugar seguro, onde poderão passar a noite.

Há colchões espalhados pelo chão, há brinquedos por todo o lado, há comida suficiente para ninguém sentir fome.

Só falta a alegria, a vontade de cantar e dançar, o prazer de correr de bicicleta ou a pé, pelos parques da cidade que está debaixo de tiroteio, ouvindo-se o ribombar dos canhões.

NADEZHDA tenta ligar ao marido para saber onde está e, sobretudo, se está bem. Mas, naquele local a rede de comunicação é fraca e não consegue estabelecer a chamada.

O seu coração parece saltar-lhe pela boca, tão preocupada está!

Há uma prece que todos sabem e em comum, rezam, com muita fé:

“Quem teme ao homem cai em armadilhas, mas quem confia no Senhor está seguro”.

Faz-se silêncio na ampla cave da igreja e muitos continuam de olhos fechados, rezando, em silêncio.

As crianças, cansadas, começam a adormecer e nos seus sonhos, sobressaltadas, muitas acordam gritando e chorando, pensando não estar perto da família.

Amanhece e os sinos da igreja tocam a repique, avisando que, mais uma vez, o inimigo se aproxima.

É preciso procurar uma solução que garanta mais segurança.

Talvez, partir de comboio, rumo à Polónia, onde têm amigos que os poderão receber, por uns tempos.

Dirigem-se à estação dos comboios e a confusão é enorme. Há soldados em todos os cantos, receosos que se infiltrem inimigos.

Sem lugares para se sentarem, quase em cima, uns dos outros, ouve-se o apito de partida.

Uma multidão se prepara para partir da cidade que ama, mas onde a sua segurança está em causa.

As pessoas tentam entrar e partir, o mais rápido possível.

A pequena YANA vai apoiada na mão firme da sua mãe, que com na outra mão carrega um pequeno saco.

PAVLO leva o seu saco, a guitarra e ao colo, o seu cãozinho. O cãozinho, também está assustado com o barulho da guerra, sem entender nada do que se passa.

Mas percebe que o seu dono está tremendo e com vontade de chorar.

Para trás ficam os avós maternos que vivem numa quinta, no campo, onde cultivam milho e trigo. Os seus nomes estão guardados nos seus corações: NADYA e ANDREY.

Nos fins-de-semana iam para lá para respirarem ar puro e poderem correr pelos campos e brincar. Dias muito felizes. Muitas vezes ajudaram o avô nos trabalhos do campo e a avó, nas tarefas caseiras.

A avó NADYA cozinhava muito bem a sua sopa preferida: Borsch Borsch, uma sopa de vegetais feita de beterraba como ingrediente principal, também popular na Rússia e na Polónia.

Entretanto, NADEZHDA recebe um telefonema do marido e fica aterrorizada.

O hospital pediátrico e maternidade da cidade onde trabalha, foi atacado pelos mísseis russos. Estão vivendo momentos de angústia e medo. Um horror, que nunca imaginara ver, apesar de saber que a maldade dos homens não tem limites.

Destruição total das enfermarias, muitos feridos e crianças mortas.

Acalma a esposa, dizendo que está bem, apenas tem umas escoriações na cabeça, provocadas por um teto que abateu no local onde estava.

Mulheres grávidas, prestes a dar à luz têm a sua vida em perigo e a vida da criança que trazem no ventre.

YAROSLAV está tristíssimo e muito preocupado. Todos lutam com coragem mas não conseguem deter completamente, o inimigo, que continua a destruir a sua terra.

Como poderão resistir ao avanço constante do exército russo, armado até aos dentes? Não respeitam as regras estabelecidas. Atacam tudo e todos, sem olhar para trás.

Uma força malévola os domina. Nada os demove! Nada os impede de continuarem a destruir e a matar inocentes.

Muitas cidades e vilas estão completamente destruídas e desertas.

Os idosos que vivem nos Lares estão sendo evacuados, porque os ataques chegam a todos os lugares. A maldade é cega.

Os avós paternos de YANA e PAVLO devido a idade avançada e para terem melhor assistência e quem os cuidasse, vivem num Lar residencial na cidade de MARIUPOL.

Já tiveram que ser evacuados para outro lugar, para não sofrerem os ataques aéreos, que constantemente se ouvem na cidade.

Estão vivos, mas muito assustados e preocupados com o filho, os netos e a nora.

Não imaginaram, jamais, viver uma guerra agora, nos seus últimos dias.

O comboio avança, lentamente, pois há necessidade de saberem se há condições para prosseguir a viagem com segurança.

As notícias recebidas nos seus telemóveis são preocupantes. Não se vislumbra a esperança de haver um regresso à Paz perdida, sem uma razão que consigam entender.

Faz frio, as temperaturas de inverno são baixas. Embora estejam bem agasalhados, sentem a falta de condições, comparadas com a sua vida normal.

Muitas vezes fizeram esta viagem, mas com outras condições, com tranquilidade, toda a família reunida e sem medo de nada.

Esta viagem é muito diferente. A alegria, os sorrisos, a esperança do reencontro com a família ficam ofuscados pela tristeza, pela dor de saberem que na sua Pátria, há gente que morre, há choro, há lágrimas e muito sangue derramado.

Até quando? (continua)


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.