Honra, Verdade e Gentileza

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Falei aqui, há uma quinzena atrás, sobre dois escritores no Alentejo e, com a devida distância, algumas das suas similaridades, mas não disse tudo. Foi uma espécie de introdução ao “encontro” que nessa crónica não foi revelado. Trata-se do encontro de um com a primeira obra do outro, que se deu por volta de 1963, quando António Telmo publica o seu primeiro livro: Arte Poética, uma profunda e original reflexão filosófica sobre o tema. Mário Saa receberá um exemplar com dedicatória, e no ano seguinte, de Lisboa, escreve-lhe uma carta, com o seguinte:

Lisboa, 9 Maio 1964

            Exmo. Amigo

Há muito deveria ter vindo junto de António Telmo, agradecer-lhe, agradecer-lhe… Perscruto as razões destas demoras mas não as encontro. No entanto penso que maior o respeito pela intelectualidade da pessoa, pelo valor da obra oferecida, maior a inhibição, maior a demora! – Será assim? O seu livro é, sem dúvida, o de maior responsabilidade mental, o de mais viva inteligência que nestes últimos anos me tem chegado às mãos. Agradece-lh’o, não bem o autor da “Erridânia” mas, de preferência, o da “Explicação do Homem”. De qualquer modo agradece-lhe o

                                                                                                                                     Mário Saa

Mas não se ficou por aqui. No final do livro de Telmo, escreveu a seguinte nota, com rosto de sincero elogio:

Mário SaaImpressiona-me como compreensão [?] profunda de Bergson, para lá da Pragmática, e em prosa magistral. Obra Perfeita. Só depois da leitura do texto capital poderemos compreender os preâmbulos e estes, contra a sua própria condição em Pragmática e em sentido etimológico, deveriam apresentar-se na última página da obra, para serem entendidos com o movimento adquirido nesta… os propósitos deveriam vir no fim, depois do conhecimento da obra pelo leitor, à guisa de ilustração da mesma, à guisa de índice. De facto o autor escreveu-os ao cabo de tudo, como remate, mas não os pôs no fim de tudo e há desaguisado nisso… Mas para a melhor compreensão desta obra de António Telmo, nós temos que ler, sucessivamente e por ordem: a) obras de Bergson (o que geralmente não acontece); b) Arte Poética de Telmo, propriamente dita, isto é, isto é [sic] com exclusão dos prólogos; b) [sic] os prólogos. Assim, perfeitamente tudo sucedido.

Segundo a investigadora Elisabete J. Santos Pereira em “As dedicatórias da Biblioteca de Mário Saa”, publicado na revista VIALIBUS – Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles, Edições Colibri, Lisboa, n.º 2, 2010, é a única nota que Mário Saa deixa nos vários livros autografados que lhe foram oferecidos. É assim, caso único, e estamos a falar de livros de escritores como: Almada-Negreiros, Teófilo Braga, Raul Brandão, Ferreira de Castro, António Ferro, Pinharanda Gomes, Raul Leal, Adolfo Casais Monteiro, Teixeira de Pascoaes, José Régio, Aquilino Ribeiro, António José Saraiva, João Gaspar Simões, Leite de Vasconcelos e António Manuel Couto Viana.

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É bonito, e dá esperança, ver o reconhecimento de um escritor por outro seu par, exemplo para os escritores, os artistas, a humanidade. Reconhecer a luz que há no outro é sempre uma forma de honrar o nosso próprio ser. Quando dois grandes, na sua simplicidade se encontram, podem acontecer coisas assim, que ficam a reverberar por todos os tempos.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.