Invisíveis

Paula Freire, opinião
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Quando a minha filha era ainda bebé, teria por volta de uns três meses de idade, vivi um longo momento inusitadamente dramático que, provavelmente, terá sido dos que mais me causou angústia e ansiedade ao longo do meu percurso de vida.

Um simples desencontro entre mim e o meu marido, que empurrava o carrinho que transportava a nossa filha, na entrada e saída de uma loja de uma grande superfície, e a espera de vários minutos por ele, que a mim me pareceram horas, gerou um situação de pânico da minha parte que ainda hoje, mais de uma década depois, lembro com algum desassossego interior e não consigo abordar de ânimo leve.

Subitamente, numa aflição inqualificável e que galopava desmesuradamente a cada minuto que passava, dei comigo a percorrer a passos largos cada milímetro de todo o centro comercial. Desesperada, imaginava já alguns dos piores cenários onde sobressaía, evidentemente, a possibilidade de rapto da minha filha, num possível momento de distração do pai.

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Cenário rocambolesco que, algumas horas depois, conseguia perceber como tendo sido completamente exagerado e injustificado. Mas, na altura, a razão já não media sequer forças com as emoções desgovernadas. Com o passar do tempo, os músculos do corpo pareciam enfraquecer impedindo-me de me movimentar, a respiração estava ofegante e, por fim, caía numa avalanche de lágrimas e soluços incontidos.

No meio dessa terrível agonia, que quase me paralisava, ainda que sentisse que continuava a mexer-me e a andar, dentro do edifício, sem saber bem por nem para onde, nem o que poderia fazer, duas ideias dilacerantes me vinham com frequência à mente.

Por um lado, o amor que sentia pela minha filha e a previsão do estado mental de loucura a que sucumbiria se a perdesse.

Por outro, a condição de invisibilidade a que parecia submetida. Cheguei a duvidar se aquele quadro de ânsia aflitiva e choro compulsivo eram percetíveis para quem se cruzava comigo pelos locais por onde passei.

Reparava que uma ou outra pessoa, muito raramente, olhava na minha direção mas, mesmo essas, sem exceção, continuavam a sua marcha sem qualquer hesitação ou mesmo uma expressão inquisidora no rosto. Jamais alguém parou uns segundos e muito menos se dirigiu a mim no sentido de saber se me sentia mal ou precisaria de ajuda. Uma insensibilidade, uma espécie de “neutralidade” emocional que me soou estranha e quase assustadora.

Felizmente, a situação resolveu-se sem quaisquer consequências negativas. A minha filha, feliz e bem-disposta, lá estava na companhia do pai tranquilo e sereno que, depois do desencontro e muito sabiamente, resolvera aguardar ali próximo o meu aparecimento, em vez de andar a deambular à deriva como eu fizera.

InvisíveisTalvez pela força demolidora que me atingiu em tudo o que senti nesse dia e que me parece sempre tão difícil explicar em palavras, não consigo deixar de ficar chocada com acontecimentos tão bárbaros como aqueles que, com frequência, se vão revelando aos nossos olhos.

Como a morte da pequena Jéssica, na passada segunda-feira, em Setúbal, alegadamente vítima de violência brutal à mãos de quem seria suposto cuidar dela.

E de outras tantas crianças pertencentes, na sua maioria, a famílias disfuncionais sem recursos financeiros para sobreviverem com o mínimo de dignidade. Seres frágeis que, por si só, são totalmente vulneráveis, expostos a ambientes precários, violência, abusos e maus tratos. Crianças vítimas de muitos desentendimentos familiares, de processos de separação e de vinganças irracionais e mesquinhas.

Crianças que são vítimas de crimes cometidos pelos familiares que lhes são mais próximos, em particular por quem deveria ser o seu maior e melhor cuidador: as próprias mães. Pela prática do ato, por negligência ou por cumplicidade.

Crimes de uma amplitude absolutamente perversa, por trás dos quais se descobrem histórias que perturbam e nos deixam impressionados.

Mas não nos esqueçamos o que importa igualmente frisar: histórias que, por vezes, são do conhecimento de muitos. Muitos que nada fazem para garantir a estas crianças todos os direitos que lhes permita não continuarem a permanecer em situações de risco social.

E isto, parece-me válido tanto do ponto de vista da legislação em vigor nesta matéria, que deverá ter ainda um largo caminho a percorrer no sentido de garantir, de forma efetiva e definitiva, a segurança e a vida das nossas crianças, como no que se refere ao olhar e presença de todos como cidadãos conscientes neste domínio.

Participar ativamente e também de modo pessoal numa sociedade que protege os mais frágeis e que são o nosso futuro, é um dever, uma obrigação legal e moral.

Está nas mãos de todos impedir que continuem a ocorrer infanticídios e homicídios. Condições que colocaram um ponto final, de forma macabra, em tantas histórias de vida e que têm ficado para sempre na nossa memória.

Como a história de vida ainda tão curta da pequenina Jéssica. Ou a da Joana, em setembro de 2004, em Figueira (Portimão); da Vanessa, em maio de 2005 no Bairro do Aleixo (Porto); do André, em outubro de 2009, em Vila Nova de Gaia; da Valentina, mais recentemente, em maio de 2020, em Atouguia da Baleia (Peniche).

E tantas, tantas outras histórias que ficaram por viver e mesmo por contar, pois que os contornos continuam até hoje por definir satisfatoriamente ou as provas do ato criminoso possam ter vindo a ser dadas como certas.

Todas estas crianças e os demais envolvidos nas suas mortes dificilmente estariam sós. Junto deles, outros observaram, suspeitaram, eventualmente confirmaram e, decididamente, calaram. Eles não estariam sós. Estariam apenas remetidos ao silêncio, numa situação de defesa em relação a quem viu ou desconfiou, hesitou e preferiu ignorar.

Demasiadas vezes, a recusa em olharmos a dor do outro, como forma de negarmos a nossa própria desumanidade, fruto deste torpor e “miopia” social que, ao longo dos tempos tem vindo a alojar-se dentro de nós e que vai remetendo à indiferença aqueles que nos rodeiam, colocando-os numa esfera de invisibilidade.

Gostamos sempre de acreditar que estamos longe se ser assim, que determinadas propriedades muito pouco abonatórias da nossa pessoa, não fazem parte dos valores que professamos.

Mas, tenho a certeza, somos incapazes de negar, nem que seja bem lá no íntimo, que estamos a tornar-nos seres cuja empatia, essencial à nossa sobrevivência dentro de uma civilização, se vai diluindo ameaçadoramente.

Estamos a tornar-nos seres invisíveis num mundo repleto de gente.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.