Antiga Sé de Elvas
©Manuel Martins
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroVeio parar às minhas mãos um livro intitulado Regresso a Séfarad, de um judeu francês de ascendência espanhola, Pierre Assouline, escritor e jornalista. Nele, narra as suas diligências para readquirir a nacionalidade espanhola, em resposta ao convite do rei Filipe VI feito a todos os sefarditas descendentes de antigos judeus expulsos, nomeadamente pelos reis católicos.

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Durante a leitura encontrei, várias vezes, a ideia de que «a memória precede o nascimento», o que justifica o desejo de readquirir a nacionalidade dos seus antepassados, judeus espanhóis na Idade Média expulsos da pátria.

No meu caso, é essa memória que justifica a continuada alegria por escrever neste Portal de Elvas, em cuja proximidade nasci (S. Vicente e Ventosa) e vivi, embora “apenas” até aos dois anos.São Vicente e Ventosa - Elvas

Realmente, as recordações, como já escrevi anteriormente, não são muitas, mas a memória é constante e vasta. Como se habitassem em mim (e de facto habitam) todos os meus avós, e todos os bisavós, tetravós e por aí fora. Tenho, pois, a memória do que não vivi pessoalmente, mas que foi vivido por uma linhagem que, desdobrada em leque tanto mais amplo quanto mais recuamos no passado, mais faz crescer o nosso grau de parentalidade com a humanidade que nos precedeu. Isto significa, não só a improbabilidade da pureza da raça na actualidade (e não me refiro apenas a este século ou ao século passado), mas também, pelas suas implicações, o cruzamento de famílias e linhagens.

Isto observa-se quando, fazendo a multiplicação dos que nos antecederam, chegamos a um ponto em que temos tantos antepassados (multiplicando por dois a cada recuada geração) que isso seria uma impossibilidade matemática em função dos números que conhecemos da população mundial presente e passada. Tal resultaria, aparentemente, num paradoxo que os números não conseguiriam explicar, contudo perfeitamente explicável sem o auxílio destes, que sendo muito úteis, não chegam para tudo.

Uma rápida e fácil inventariação leva-nos à denominação das qualidades de todos os que nos precederam: avós, bisavós, trisavós, tetravós, pentavós e por aí fora… há designação para todos.

Se nos detivermos por aqui, e fazendo uma pequena investigação, alguém nascido na segunda metade do século XX, no início do século XI teria 2.147.483.648 triacontevós (metade homens, metade mulheres) nascidos no início do século XI, sabendo-se que só no século XX a população mundial atingiu este número.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Como se explica? É a teoria do “implexo dos ascendentes”, segundo a qual várias pessoas descendem do mesmo antepassado por linhagens diferentes. São os conhecidos casamentos endogâmicos que explicam a disparidade entre o número teórico ou matemático, e o número real ou histórico.

Em sociedades fechadas e meios pequenos, ainda há pouco tempo se verificava (verifica?) a tendência para casamentos dentro de uma família, pelo critério de proximidade geográfica, de meio social ou religião. O caso das famílias reais é universalmente conhecido. Conheço relatos de muito recentes hábitos ou tentativas de casamentos entre primos em famílias judaicas, que embora tendo esquecido quem são, mantêm o hábito, uma forma já inconsciente de, talvez, proteger a comunidade. Quer exista, quer não, a consciência desse judaísmo, «a memória que precede o nascimento» mantém-se presente.

No caso da minha família, tenho o exemplo próximo do casamento dos meus pais, primos não direitos, mas ainda assim aparentados.

E se tivesse casado com um anterior pretendente, a minha mãe teria casado com outro primo, ainda que afastado.

Em certas comunidades mais pequenas, era hábito incontornável. Tudo isto por necessidade ou memória, sendo que a memória pode estar radicada em questões de necessidade.

O que se torna divertido é ver alguns reivindicarem a pureza da sua linhagem e mais lá atrás terem de partilhar o “avô” com uma enfiada de gente. De facto, a quem custar muito aceitar o facto de que somos irmãos (não seriam muitos, os Adãos e as Evas iniciais), não é possível, face aos factos e aos números, e perante a fórmula que determina o implexo (subtrair ao número teórico de antepassados da geração, o número real), que somos, de algum modo, e várias vezes, primos, ainda que uns possam ter uma percentagem mais elevada do que outros, ele aí está, definitivamente, em todos.

É esta memória que antecede o nascimento que me leva a escrever quinzenalmente para pessoas que não conheço, mas que certamente conheço de algum ou de alguns dos tempos que correm no meu ADN, por termos em nós diversas qualidades de avós. O que não nos torna melhores nem piores do que ninguém. E isto é, para mim, uma grande esperança.

Diz, ainda, Assouline:

“A força vem-nos dos nossos antepassados”.
Assouline, esse meu (nosso?) remotíssimo primo hispano-francês.
Onde cabem aqui os ódios e as guerras? Dificilmente…
Para o compreendermos, apenas temos de ser racionais. Sê-lo-emos?