Lateralidades

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Um dos problemas que podem começar na infância devido a variadas causas, sendo uma delas um deficiente uso do espaço, isto é, falta de liberdade para o bebé explorar o mundo à sua volta, são questões relacionadas com espacialidade: dificuldades de orientação, ou problemas em distinguir a esquerda e a direita. Vivi, até aos dois anos, numa típica casa alentejana de Santa Eulália, com um belo chão de tijoleira, e o período em que deveria ter começado a gatinhar e a investigar os mistérios nos recantos do chão, coincidiu com o Inverno, pelo que, para me defenderem de constipações, passei esse tempo numa cadeirinha alta de bebé, a uma mesa, com brinquedos que atirava para o chão e a minha mãe apanhava. Não fiquei com problemas de lateralidade, sempre soube muito bem distinguir a esquerda da direita, mas não sou uma barra em orientação espacial. Vou ter aos sítios, mas com dificuldade na economia dos passos. Até chegar, as voltas são sempre muitas, o que acrescenta, aos problemas de espaço, um comprometimento de tempo.

TijoleiraAqui na Europa vivemos durante muitos anos, pelo menos uma boa parte de nós, gente da minha geração ou afins, convencidos que tínhamos os limites muito bem arrumados numa gaveta com separadores morais à prova de qualquer equívoco. Esquerda era esquerda, direita era direita, os valores de uns eram assim, os de outros eram assado. E pronto, pelo menos por aqui dormíamos descansados. Mas as coisas foram mudando, ou então começaram a perder as suas máscaras, e hoje conhecemos pessoas de direita que admiramos, e pessoas de esquerda que por amor de Deus! É claro que continuam a existir aqueles de direita que por amor de Deus (e agora mais e mais assustadores!…), e os de esquerda que respeitamos, mas talvez não pelas razões que sempre lhes atribuímos, não por emblemas, frases ou bandeiras…

Agora, a guerra na Ucrânia veio baralhar ainda mais os valores que julgámos sólidos. Porque, quando vemos um líder de um país com que se identifica um nosso partido de esquerda, financiando a extrema direita europeia fascista, a invadir um pais em paz para, alegadamente, o des-nazificar, e sabemos que um criminoso neo-nazi tentou ir para esse país com a permissão de uma juiza, combater junto dos patriotas que defendem a sua terra e que não são necessariamente nazis, pelo contrário, quando sabemos que o partido comunista russo condenou esta invasão, e que o partido comunista português também nim, percebemos que precisamos de largar as cartilhas, manter os valores bons, e avaliar com o coração e não com os programas dos partidos ou as ideologias estafadas e confusas. Precisamos de confiar mais em nós e necessitamos de saber que os donos do mundo estão interessados na nossa confusão e medo, para continuarem a fazer os seus negócios. Porque eles, ao contrário de nós, não têm limites, não funcionam em caixas, não têm ideologia, mascaram-se dela segundo os interesses, mas qualquer dinheiro é bom para comprar armas, drogas, pessoas, órgãos, ouro, combustível, países, ou seja o que for. São verdadeiramente apartidários, globais, e estão onde e com quem for necessário. Desde que o negócio não sofra. A nós, arrumam-nos em caixinhas de valores, dividem-nos para poderem reinar, isto é, ganhar com as nossas convicções. Hitler, para além de monstruoso, era vegetariano e muito interessado no saber esotérico. Estas duas qualidades não o transformam, necessariamente, numa boa pessoa. Muito menos num bom líder. Não sejamos ingénuos e aprendamos com eles, para não nos deixarmos iludir por ideologias, que podem ser uma referência de valores, mas não valem o que apregoam. Pela minha parte, começo a chegar à conclusão de que o facto de não ter gatinhado na altura certa, começa, tardiamente, a baralhar os meus conceitos de lateralidade, pelo que terei de recorrer aos meus antigos truques para orientação: dar umas voltas dentro e fora de mim, rodar e baralhar, de preferência de olhos vendados, demorar o tempo de que precisar, e confiar no mestre interior que preside acima de todas as divisões e para quem o valor mais alto paira acima de programas: o amor universal, o respeito e o auto-respeito, o rigor, a bondade e a compaixão. Que, ao contrário das competências de orientação, tentaram ensinar-me ainda no Alentejo, em pequenina, mas não sei se as aprendi, porque me faltou o chão. Seja como for, ainda estou a tempo. O livro de instruções guardo-o no coração e ecoa por todas as células em forma de cante. Até as preencher.

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A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.