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A reflexão de Bérénice Levet é importante no actual contexto em que vários indícios, e razões já instaladas, desconcertam de facto feministas que se perfilam num horizonte de recriação do Mundo e de “resistência íntima”, para aqui resgatar uma bela proposta de Josep Maria Esquirol. Ressalto quatro pilares das forças de um feminismo que este livro – “Libertem-nos do Feminismo! As novas inquisições”, obriga a olhar de frente, sem assombrações: 1º a vitimização das mulheres; 2º o policiamento da arte; 3º o ataque à heterossexualidade; 4º em estreita relação com este ataque, as acusações lançadas de cisgeneridade. A defesa da igualdade não pode escamotear um mal-estar óbvio, que, contudo, não diria, como Bérénice Levet, está a descaracterizar derradeiramente os homens na sua identidade ancestral; digamos que estamos assustados, mas não se trata de uma capitulação. Por tal, não se pretende fazer aqui uma recensão do livro, mas antes proceder a um diálogo com Bérénice Levet.

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1º. Os números de que dispomos quanto aos homicídios praticados sobre mulheres, em situação de intimidade ou relações “amorosas”, são preocupantes, e devem intimar-nos; tal como as violações perpetradas sobre os seus corpos em cenários de guerra; assim como as ocasiões de violência doméstica, que terão recrudescido nas ocasiões de confinamento que a pandemia nos exigiu; também os sinais de violência no namoro entre jovens devem ser acautelados. Face a este quadro, realmente, a criminalização do piropo, por exemplo, devia levar as mulheres e os homens a assobiarem para o lado; pelo que se torna disfuncional ver uma vítima – mulher, a torto e a direito, sem ser possível discernir a gravidade com que se nos apresentam as situações, e correndo mesmo o risco de deitar fora o menino com a água do banho, como dizem na Alemanha. Desse indiscernimento, e falta de lucidez, corremos o risco de não responder às reais vítimas de violência, de violação, seja ela física, seja ela simbólica.

2º. A arte não pode, realmente, ser policiada. A arte é natureza de terceiro grau: onde os monstros da natureza de primeiro grau se libertam, onde os fantasmas que a natureza de segundo grau – cultura, aprisiona, circulam livremente, e onde as fadas operam incansáveis. O facto, tantas vezes desconcertante, de hoje se afirmar, por exemplo e para as artes plásticas essencialmente, que na arte vale tudo, que tudo pode ser arte, que até uma criança de 5 anos faria certas obras de arte, não pode, e não deve, funcionar como mola propulsora para uma castração do imaginário. Por outro lado, não podem, e não devem, ser amputadas obras do passado, por terem, como acentua Bérénice Levet, e segundo os códices das forças de um feminismo, segregado as mulheres. O Logos foi um jogo enunciado masculinamente: Giorgio Colli, para nos dar conta do nascimento da Filosofia, começa precisamente pelo Mito do Labirinto, onde constam seis entidades masculinas e uma feminina; e se foi Ariana quem deu a Teseu o fio com que, depois de vencer o Minotauro, conseguiu sair do intrincado Labirinto, também é certo que a figura feminina foi eclipsada do cenário historicamente, e seria preciso esperar por Friedrich Nietzsche para se perguntar – quem saberá exactamente quem é Ariana? Nietzsche respondeu: Dioniso; mas Colli não é assim tão peremptório. O Mito do Labirinto marca o nosso início civilizacional grego e fá-lo com um sacrifício – o da mulher, Ariana. O que não deve, todavia, fazer desejar, hoje, derramar sangue, mas antes que nos apropriemos da língua e por ela velemos.

3º. É com efeito desconcertante a consideração da heterossexualidade como quase patologia social, naquele sentido em que uma quantidade considerável de pessoas seriam reféns de uma indução perniciosa que as levaria a sentirem-se atraídas, mesmo em contradição com a sua natureza, pelo sexo oposto: são os efeitos, como se lê em “Libertem-nos do Feminismo! As novas inquisições”, de uma tese construtivista levada a efeitos exponenciais errados. É muito oportuno aludir a Michel Foucault, como o faz Bérénice Levet, nomeadamente à obra “Vigiar e Punir”, onde este autor discorre sobre os mecanismos de coerção, ressaltando-se a prisão enquanto drástico cárcere. Mas, pela minha parte, ainda recorreria a Michel Foucault por outro motivo, relacionado com a sua homossexualidade e com a forma como a vivenciou. Foucault via a homossexualidade também como uma resistência, tanto ao confessionalismo e decorrente inclinação patológica deste advindo, que viriam a infiltrar-se na vivência da sexualidade no Ocidente, como às tendências gregárias responsáveis pela organização métrica da sociedade, em que ressalta a família. Ora, quando se fala em maternidade de substituição para proporcionar uma criança a quem não pode fazê-las – casais homossexuais, ou em bancos de esperma – casais lésbicos, e outorgando-se estas possibilidades de progressistas, e acusando outras ideias discordantes de serem reaccionárias, questiono: o que querem estes casais para lá da família? Apenas não se chamam “pai” e “mãe”, mas progenitores 1 e 2.

4º. As acusações de cisgeneridade perturbam: um homem que se sente homem, acumulando pele branca, ocidentalidade e heterossexualidade, transforma-se em potencial agressor arquetípico; uma mulher que se sente mulher, sobretudo, uma mulher que encarna características consideradas alienantes, desde aspectuais e relacionadas com uma aparência, digamos, construída para outrem, leia-se aqui homem, e que lhes junta uma docilidade acentuada, pode ser alvo de desconfiança. Nestes termos, as demandas das forças de um feminismo que, sob a égide inclusivista, afinal, segrega de forma estonteante e aflitiva, assentam num cavalo de batalha claro: o “eu” encapsulado. E esquecem, essas forças, que para aquele homem se sentir homem necessita da participação positiva da mulher; esquecem também que as mulheres estão lançadas no mundo, como todos os sujeitos, aliás, e que, para lá dos olhares dos outros que me possam desapossar da minha liberdade – postura de Jean-Paul Sartre, eu não me vejo integralmente, logo, existem partes de mim a que todos os outros têm acesso, e eu não – situação descrita por Maurice Merleau-Ponty, filósofo que Bérénice Levet cita para vincar esta nossa intrínseca abertura ao Mundo, o nosso encastre na carne do Mundo. Mas ainda poderíamos lembrar aqui Emmanuel Levinas, para quem o meu rosto diz ao Outro, e vice-versa: “Não matarás”, pelo que, contrariamente a cápsulas hermeticamente fechadas, nós, humanos, estamos também nas mãos do/as semelhantes. Mas é muito diferente, de facto, considerar o/a semelhante uma ocasião de alienação e usurpação, e, ao invés, assumir a nossa interdependência relacional radical, para o que se exige confiança e certa fé.

“Libertem-nos do Feminismo! As novas inquisições” de Bérénice Levet merece ser lida com atenção, e incitar à discussão.

Cláudia Ferreira

Cláudia Ferreira é natural de Coimbra. Licenciada em História/var. História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo frequentado Estética e Filosofia da Arte na FLUCL, em Lisboa, sendo nessa mesma cidade que viria a concluir o mestrado em Estudos sobre a Mulher – As Mulheres na Sociedade e na Cultura, concretamente, na FCSH da Universidade Nova de Lisboa, para, em 2019, obter o doutoramento em Estudos Contemporâneos na Universidade de Coimbra com a tese intitulada O Rosto das Horas: do feminino e do masculino, com a arte. É investigadora do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX – CEIS20 e desempenha as funções de Técnica Superior na Câmara Municipal de Condeixa.