Publicidade   
   Publicidade   

A professora conduziu as meninas até ao largo principal da aldeia. Não se sabe muito bem a que razão se deveu o diferente dia. Solitária ficou a sala de aula com suas carteiras, quadro negro, mapas, bandeira e retrato do dirigente. Pararam junto da estrada que atravessa a aldeia, e com um ancinho, cada criança cavou um pequeno buraco, e nesses orifícios alinhados foram amorosamente colocadas, como só mãos de criança sabem fazer, as pequenas amoreiras. Não era ainda habitual celebrar dias disto e daquilo e as preocupações com o ambiente ainda não se desenhavam no horizonte, que era claro, limpo e despreocupado.

   Publicidade   
   Publicidade   
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Talvez fosse o início da Primavera, talvez a aldeia esperasse a visita de alguém importante, talvez a professora fosse mesmo diferente dos seus pares da época. Não sei se as árvores que se perfilam hoje no mesmo local são as mesmas que nesse tempo ido, e hoje rememorado, ali foram colocadas. Não tenho sequer a certeza que sejam amoreiras as árvores que se encontram perto da fonte do largo principal, aquele que ladeia a estrada, muito próximo do restaurante Pompílio. Sei que em sociedades eticamente avançadas, para cada cidadão deve haver três árvores. Não sei quem foram as meninas que nos meados dos anos trinta do século passado plantaram as amoreiras no largo da aldeia de S. Vicente perto da casa da prima Maria José e da mercearia onde em pequena a minha avó Ana Carlota me comprava gelados de gelo. Mas conheço uma das meninas que contribuiu com a sua parte de árvores. É minha mãe, e ainda há poucos anos se recordava deste episódio, que foi ela que me contou. Gosto de a imaginar menina com seu impecável bibe branco de escola, ajoelhada sobre a calçada e correspondendo da forma perfeita, como sempre gostou de fazer as coisas, às indicações da professora. Gosto de me imaginar aproximando-me dela sem que ela me veja, murmurando-lhe ao ouvido, sem que se aperceba, mas de modo que fique tatuado dentro de si, por dentro da pele, o seguinte:

– Julieta, um dia queres ser minha mãe?

Artigo anteriorElvas: Incêndio no Monte dos Pepinais
Próximo artigoComando Distrital de Portalegre da PSP comemora 141 aniversário com caminhada e BTT
Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.