Manda quem pode, obedece… Quem tem juízo

Paula Freire, opinião
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Parou no meio do escritório. Acendeu, com lentidão, um cigarro e pousou-o no canto dos lábios. Um gesto característico já gasto pelos anos. Não havia ninguém na fábrica que não lho conhecesse. Semblante carregado como, se nos cantos escondidos, vislumbrasse fantasmas. E eles estavam lá, com certeza. Eram-lhe reais no pensamento. Quase lhes ouvia os risos escarninhos a zombarem da lucidez em que tanto precisava de acreditar.

Os olhos sombrios perscrutavam lentamente o aposento. E o peito, consciente da realidade, terminava sempre com aquele suspiro pesado de quem se sente alvo de uma perseguição sem fim. A mente ocupada com o objetivo que lhe dava ânimo e, em simultâneo, lhe diminuía progressivamente as forças: como “dar a volta” à conspiração que o sócio e todos os empregados próximos estariam a cozinhar, para o destituir do lugar. Tiravam-lhe horas do seu precioso sono, os bandidos. Não lhes podia permitir que pactuassem com a sua velhice antecipada. Logo ele, tão consciente do avançar da idade e dessa necessidade imperiosa de conservar a pujança de uma juventude atrativa para qualquer mulher; sorte com que fora, pela vida, bafejado.

Por pensar em mulher, o que andaria a sua a fazer? Olhou para o relógio… Certo. Hora exata da chamada habitual para confirmar obrigações cumpridas e desalinhavar suspeitas ocultas.

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Manda quem pode

– Sim, sou eu, quem mais haveria de ser? Por acaso esperavas ouvir outra voz?… Estás em casa. Portanto, já foste buscar os miúdos, certo?… Não, hoje não posso levar-te à hidroginástica. Tenho uma reunião urgente aqui na fábrica… Pois, não sei. Não há hora para terminar, como bem sabes.

Desligou abruptamente, como era suposto fazer. Não haveria reunião nenhuma, evidentemente. Mas com as mulheres é preciso trela curta ou elas abusam. E no seu reinado, ele é que comandava as hostes, sobre isso não havia hipótese de discussão. E assim, poderia pôr-se em casa a qualquer momento, pensava, muito cioso de que um dia a apanharia com a boca na botija.

Resolveu-se, por fim, a ir dar um passeio pelos corredores da fábrica. Silêncio absoluto. Ninguém à vista. Ninguém em quem pudesse despejar a neura que o consumia. Mais uma vez, o término de um dia de trabalho fielmente cumprido pela malta toda. Era para isso que lhes pagava a comida que, em casa, despejavam na mesa. Para se porem todos a mexer à hora exata. Cambada de mandriões. Nem um minuto a mais de amor à camisola. Se algum dia a casa pegasse fogo, tinha a certeza absoluta que ali ninguém se ofereceria para ajudar a pagar o incêndio. “É por estas e por outras que temos o país a afundar”, ruminou com um travo amargo na língua.

De regresso à poltrona do escritório, onde se afundou com o peso morto de quem sofre grave maleita. Em cima da secretária, à sua frente, o portátil desligado a olhá-lo com desconfiança. Lembrou-se de que queria fazer umas pesquisas pela internet. Ouvira falar de umas aplicações bastante interessantes para rastrear telemóveis. Algo que acreditava vir a ser-lhe de enorme utilidade. Mas nem valia a pena dar-se ao trabalho de ligar o aparelho. Sozinho não se desenvencilharia. Não entendia nada do assunto.

Afinal, para que raio precisava ele de um portátil?… Ah, pois… Era importante ter o facto presente em mente. Às vezes, caía no erro de se esquecer: uma questão de marketing, de promoção pessoal, de savoir-faire. Que espécie de executivo seria ele se não tivesse à vista de terceiros, num escritório proficuamente decorado, uma das suas mais gloriosas ferramentas de trabalho? E claro, sempre o smartphone a fazer companhia. No coração deste mundo moderno há que causar a melhor impressão e a primeira, por sinal, desencadeia milagres nos futuros negócios de um homem.

Subitamente, o telefone a tocar com irritante ruído. Mas porque não se tinham ainda lembrado de implantar nestas coisas as opções de uns tinidos menos perturbadores? Não percebeu se a exasperação interior que lhe pôs a tez ainda mais franzida, foi fruto da pouca vontade em atender a chamada, se o facto da telefonista contratada para o efeito, ser tão boa cumpridora de horários de saída. Mais uma vez, e graças à sagrada incompetência subalterna, lá seria obrigado a fazer figura de urso. O que pensariam de uma empresa cujo próprio diretor é quem atende as chamadas telefónicas exteriores? Para gáudio de muitos, o seu almejado prestígio continuava a ser uma miragem… Tinha ele muita razão na certeza da conspiração do universo a seu desfavor.

Vociferou um palavrão aos ouvidos das quatro paredes. Recostado na cadeira, pés descansados em cima da secretária e sorriso forçado de orelha a orelha:

– Estou, estou?… Sou, sou… Ah! Sr Fonseca, como está? Ligou no timing certo. Então, o que manda o patrãozinho?

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.