Opinião - Risoleta Pinto Pedro
   Publicidade   
   Publicidade   

Nasceu em Montargil, concelho de Ponte de Sor, e despediu-se desta vida no hospital de Elvas, assim cumprindo o seu ciclo, entre 1938 e 2021. Refiro-me a Manuel Ferreira Patrício, de quem não será fácil falar, sob o risco de me exceder em extensão, ou de omitir factos relevantes. Ainda assim, tentarei. Este intelectual, estudioso, comunicador, professor, pedagogo, filósofo, que dá nome ao Agrupamento de Escolas Manuel Ferreira Patrício-Évora, tem um percurso de tal modo cheio e impressionante, que difícil se torna seleccionar os aspectos mais relevantes, pelo que aconselho o leitor a buscar por si um currículo completo deste vulto e a sua obra, nomeadamente as Obras Escolhidas, uma edição Mil/Grupo Delta, recentemente editada em seis volumes. Ainda assim, não posso deixar de referir ter assumido as funções de professor catedrático da Universidade de Évora entre 1993 e 2006, da qual também foi reitor, entre 2003 e 2006. A sua área de investigação e leccionação girou em torno da Psicologia Social, da Filosofia, da Pedagogia e da Filosofia da Educação; orientou inúmeros Mestrados e Doutoramentos, assim como participou em numerosos júris académicos por todo o país e em Espanha. Erudito escritor e orador, tive o privilégio de o conhecer numa conferência sobre Agostinho da Silva na Biblioteca de Ponte de Sor onde estivemos juntos na mesa, com outros oradores. Já aí se manifestou uma simpatia que houve ocasião de ampliar mais tarde, em Amarante, durante um Congresso sobre Pascoaes que decorreu durante vários dias, em que também participámos com comunicações, sendo ele Presidente da Associação Marânus. Para além da sua qualidade como intelectual, era, humanamente, de uma profunda gentileza. Falou-me, com entusiasmo, da escola onde, sob seu patrocínio e inspiração, as crianças eram estimuladas a desenvolver mais amplas competências do que apenas as de teor cognitivo, de acordo com a sua concepção de escola cultural. Convidou-me a visitá-la, mas não chegou a haver ocasião.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Também a sua vida foi exemplo do que no campo da educação advogou, pois não se “limitou” (se é que alguma vez isso poderia ser afirmado) à dimensão intelectual, tendo sido compositor e director coral de diversos e prestigiados grupos, assim como fundador do Grupo de Metais da Universidade de Évora.

Dele, destaco uma passagem em que, a propósito do labirinto de Fernando Pessoa, afirma:

«A ideia de labirinto encontra-se ligada à arte da arquitectura. O labirinto foi, efectivamente, na Antiguidade, uma construção, tão complexa e intrincada no seu interior que não pudesse sair dele, ou tivesse dificuldade imensa em fazê-lo, aquele que lá entrasse. Houve vários. O mais célebre é o labirinto de Creta, construído por Dédalo, por ordem do rei Minos, para encerrar o Minotauro.

Manuel Ferreira Patrício
Manuel Ferreira Patrício

O labirinto teria uma única saída, dificílima de encontrar. A ideia instalada é que essa saída não coincidia com a entrada. A solução encontrada por Ariadne, ensinada pelo próprio Dédalo, contraria esta ideia, pois a saída acabava por ser a entrada. Foi Dédalo que ensinou Ariadne. Aquele que construiu o labirinto é que sabia como sair dele.»

Neste mês de Setembro, no dia 11, chegou o momento de Manuel Ferreira Patrício sair do labirinto. Valeu-lhe o seu próprio saber: saiu por onde entrou, o mês de Setembro, o seu mês de entrar e sair da vida. Fica a obra, que perdura.