Ceifeiras
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroTenho aqui falado, de vez em quando, de questões relacionadas com a língua, e como terminei hoje um texto sobre o filósofo António Telmo, alentejano não por nascimento, pois foi nascer a Almeida, mas por adopção e ascendência paterna, já que o pai era de Campo Maior, texto que sairá numa publicação periódica cujo próximo número lhe será dedicado por passarem em 2020 dez anos da sua morte, ao rever o texto antes de o enviar neste dia de S. Pedro em que estou a escrever, lembrei-me, e já explico porquê, das ceifeiras do nosso Alentejo.

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“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Alerta António Telmo para um perigo, a progressiva consonantização da língua portuguesa, onde, naturalmente, «predominam as vogais e os ditongos», a favor de uma perda progressiva da sonoridade vocálica, explicada «como uma reacção de defesa contra a acção dos vários regimes policiais que sucessivamente se abateram sobre os portugueses. O medo de ser percebido pelos que estão sentados na outra mesa é uma situação típica dos últimos cinquenta anos, o que prova ter sido apenas aparente o desaparecimento da Inquisição, pois reaparece noutras vestes o mesmo espírito adversário da liberdade». Esta perda vocálica, alerta António Telmo, «põe em perigo a própria substância da língua».

Nesse problema do fechamento das vogais a ponto de por vezes o português mais se parecer, foneticamente, por quem não conheça a língua, com uma língua eslava, vejo o Brasil e África como laboratórios onde a sonoridade da língua na sua pureza vocálica ainda se mantém. Terá sido essa a razão por que António Telmo dedicou a Gramática Secreta a seu amigo, compadre e companheiro Agostinho da Silva, esse que regressado do Brasil trouxe com ele não só o rasto do trabalho que por lá deixou e semeou, mas também uma língua aberta pela sonoridade vocálica que ali se conservou desde a chegada dos portugueses.

CeifeiraOra este fechamento das vogais, para não se ser ouvido e não haver problemas, quer com a Inquisição, quer com a polícia do Estado, volta hoje a sofrer, aparentemente, uma nova ofensiva: o uso generalizado da máscara cirúrgica ou social. Ao cobrirmos a boca com a protecção da máscara (e não estou aqui a põr em causa a bondade da medida para a saúde, o assunto, hoje, é outro) o nosso discurso torna-se ainda mais incompreensível do que habitualmente. Se mesmo sem máscara assisti, por mais do que uma vez ao esforço de brasileiros em tentarem decifrar o que dizíamos, como se a língua fosse outra, imagino o que não será com a máscara. Por outro lado, também é verdade que a máscara, cobrindo a expressividade dos movimentos dos lábios e deixando sair apenas um som velado, nos obriga a fazer um esforço de articulação suplementar para nos fazermos entender. Talvez tenha esse mérito, se outro não tiver. Confesso aqui, que ninguém nos ouve, que é com um secreto regozijo que vejo agora na televisão, muçulmanos homens a terem de usar esta espécie de burka a que obrigavam as mulheres. Aqui na nossa planície sempre me recordo de ver homens e mulheres na ceifa de boca coberta com um lenço, não para que não entrasse vírus, mas para que não entrasse, suponho, pó fino dos trigais. E no deserto do Magreb, também quem nele penetra não pode dispensar a protecção das vias respiratórias. Talvez por isso, a minha tia, que recordo de ver, eu menina de férias em casa de avós e ela jovenzinha chegada da ceifa, com o lenço a cobrir boca e nariz, e tendo mais tarde, após o casamento, ido para África onde ensinou meninos e criou os seus filhos, tem, recordo desde sempre, isto é, desde que me recordo, uma luminosa e musical articulação aberta das vogais, como os brasileiros, os africanos ou as ceifeiras cuja boca coberta era obrigada a bem pronunciar abertamente cada sílaba para melhor compreensão. Modo aberto que foi encontrar, mais tarde, nos meninos e meninas, seus alunos, em Moçambique, cujas vozes ainda ecoam, musicais e claras, na fala da minha tia.