Salgueiro
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Falo dele aqui hoje, não só porque nasceu no Alentejo, em Castelo de Vide, e nasceu no dia 1 do mês em que estamos, mas porque, fazendo jus ao nome (outro alentejano, esse por adopção, António Telmo, teria falado no poder criativo da palavra) foi como o salgueiro para todos nós. O salgueiro contém, nas suas folhas, em forma natural, o princípio activo da aspirina, o qual apenas foi sintetizado a partir de meados do século XIX. Mas há pelo menos 2.400 anos que tem sido o salgueiro um benfeitor da humanidade. Como analgésico, antipirético e anti-inflamatório. A sociedade portuguesa estava, realmente, padecendo de dores, febre e inflamações várias, na manhã em que o capitão Salgueiro, que não desmerece os mais altos heróis da literatura épica, apareceu sobre um tanque, percorrendo as ruas da capital como montando um cavalo branco. Ou um unicórnio alado.

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Deusa Maia, a mais bela das filhas de ATLAS - MitologiaComo se não bastasse, possui o nome de Maia, a mãe de Mercúrio, este Hermes que trouxe a boa nova a uns e não tão boa a outros, mas as coisas são assim mesmo, não se consegue agradar a todos. É preciso agir em função da consciência, da ética e da evolução. Foi o que ele fez, correndo os riscos que não rejeitou. E mesmo os que recearam não beneficiar com aquilo que a sua aparição representou, desencadeou e proporcionou, receberam, como colectivo, uma oportunidade de escolha. Coisa que não havia antes.

salgueiro salix_alba_as_s-_vitellina_thome_1904_2nd_ed-_vol_2_plate_159_cropped_clean_no_captionFoi médico e mensageiro. Firme, corajoso, heróico, sereno, diplomata, nobre e humilde. Mais tarde, nem sempre o poder oficial soube reconhecer o seu papel determinante. Não agradou a uns por umas razões e a outros pelas razões opostas. Ou pelas mesmas? Mas as coisas são mesmo assim. Morreu, talvez, de tristeza. Não sabemos. Aparentemente, tinha uma doença. Mas o que são as doenças, senão as tristezas da alma materializadas no corpo? Disso ninguém pode ser responsável, cada um cuida como pode do seu território. Ele cuidou do nosso território colectivo, a que devolveu a integridade, e com a sua acção interrompeu a usurpação de outros territórios, o que possibilitou a dignidade. O que quer nós quer os outros longínquos irmãos fizemos com essa dádiva tão duramente conquistada por muitos e num dia legitimada, é outro assunto. Também por isso não poderia ele responsabilizar-se. Fez a sua parte.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Faz este ano, este mês, no dia 20, cinquenta anos que colocámos os pés sobre a Lua. Saímos e deixámos a casa suja e desarrumada. Já vai sendo tempo de começar a limpeza, defumação, reorganização e recriação de uma nova humanidade. Já vai sendo tempo de este planeta, onde temos andado a expiar dores, se ir transformando em planeta de regeneração. Onde a competição seja substituída pela cooperação, o medo pela fraternidade, não uma caridade vinda de cima, mas uma solidariedade justa e equânime. Alguns heróis individuais e colectivos, destacados ou silenciados, têm feito a sua parte. No meio da planície alentejana e em outras partes do país estarão a nascer outros. Não deixemos para eles tudo por fazer. Comecemos já. À sombra fresca e regeneradora do salgueiro, escutando o despertar de Maia, mãe Natureza, promessa de renascimento para que convém irmo-nos preparando. Parteiros de múltiplos partos, que nos aguardam. Como Salgueiro Maia arregacemos as mangas, e ainda que com medo, sigamos firmes e diplomatas, determinados e compassivos. Está na Hora.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.