Meu coração, minhas memórias

Paula Freire, opinião
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Às vezes, pegar em memórias faz-nos bem. Não viver delas, mas viver com elas ajuda-nos a oferecer um sabor de eternidade ao tempo e às pessoas que estimamos e que, um dia, tiveram de partir. Permite-nos recordar o prazer que sentimos ao partilhar parte da nossa vida com alguém, ainda que por pouco tempo possa ter sido, e que, de modo simples mas profundamente sincero, nos quis bem, nos fez sentir melhor.

E nem sempre os instantes vividos ao lado dessas pessoas terão implicado grandes doses de alegria, diversão ou euforia. Nem sempre terá havido lugar a longas experiências ou complexas lições de vida.

Há momentos que valem somente pelo que de efetivamente bom e real neles encerram. Pelos pedacinhos de vida que, mesmo leves e amenos, tiveram força suficiente para passarem a fazer parte das nossas lembranças, até que o fio do tempo chegue ao seu término e, definitivamente, nos desligue.

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Ao lado de algumas pessoas, daquelas que, a dada altura, se tornaram as nossas pessoas, nem sempre terão sido necessárias muitas palavras para nos fazerem sorrir o dia. Para tanto nos bastaram os gestos, as intenções ou a certeza calma de um olhar quando a vida permitia o reencontro.

Esta semana, recebi a notícia da morte de um amigo. De alguma distância e de longa data. Conhecemo-nos há quase vinte anos atrás. É estranha esta sensação da perceção inesperada de quão rapidamente se passaram esses vinte anos. A vida é um sopro. Hoje, em mim, uma lágrima feita de mais uma ausência.

Nesta ausência, recordo a última vez que estivemos juntos e insistiu em oferecer-me a mim e ao meu marido, uma caixa dos famosos pastéis de Chaves, enquanto nos abandonávamos os três ao sabor único e inconfundível de um puro café no velho Aurora, em prolongada tarde de verão. E ele, senhor de uns vastos anos, nos contava orgulhoso sobre as façanhas dos netos e a linhagem de uma família que lhe dera treze irmãos.

Como característica que me persegue desde criança, gosto de observar os olhos das pessoas enquanto falam. Dizem-me sempre tanto. Os dele contavam-me sobre o peso dos dias e uma vida de trabalho e aventuras onde a esperança não tinha lugar para a morte. Os olhos sorriam. Podia jurar que, algumas vezes, brilhavam no espaço de uma ou outra emoção contida.

Meu-coração-minhas-memoriasE era perentório cada vez que me prometia que, se algum dia viesse a ganhar o euromilhões, me ofereceria uma parte do prémio para que eu pudesse desenvolver um qualquer projeto de trabalho. Eu, silenciosamente, apenas conseguia retribuir-lhe o sorriso quando finalizava a promessa, dirigindo-se ao meu marido, com um “porque quero que saiba que tenho forte admiração pela sua senhora”. Sempre me pareceu bonito este modo elegante que lhe era tão próprio, de substituir o habitual e convencional ‘Dra.’ pela delicadeza cortês do ‘senhora’, quando se dirigia respeitosamente à minha pessoa.

Nunca ganhou o eruromilhões. Mas ganhou uma amiga. Porque uma amizade não é feita de dinheiro, mas é feita de afetos.

É bom lembrarmo-nos, de vez em quando, da importância que têm na nossa vida, estes exercícios de saudade que nos permitem trazer ao presente quem, um dia, se torna passado. Os momentos que nos deram espaço a um encontro, podem muito bem ser os lugares certos para procurar a vida. Aquela que as recordações nunca deixarão de tornar possível.

Talvez fosse um pouco desta verdade a que Rubem Alves fazia alusão quando, um dia, escrevia que o belo e a despedida coincidem.

Quem vive dentro de nós, deve viver com uma presença verdadeiramente humana. Não de uma forma perfeita, mas de um modo válido, que nos faça sentido quando chegada a hora de partir.

E enquanto nos esperam, tenhamos essa capacidade de não nos esquecermos que, de uma maneira ou de outra, o nosso pequeno mundo, aos poucos, vai-nos abandonando num saudoso e infinito adeus. Toda a nossa vida é como a arte de uma história desenhada na areia. Uma arte fugaz e momentânea.

Tudo finda conjugado no verbo ser. Somos cinzas. Somos pó. Quero acreditar que seja de estrelas. Assim, lembrar-me-ei sempre de si, meu bom amigo e poderei dizer-lhe, como Sagan, que diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, foi um prazer para mim dividir este planeta e esta época consigo.

Descanse em paz, meu amigo.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.