Morrer de Fome

Opinião - Graça Amiguinho

É um drama sem fim, a morte de tantos humanos, por falta dos alimentos essenciais à sua sobrevivência.

Quantas vezes me interrogo: – se fosse eu ou os que amo, a viverem numa situação de miséria extrema, como reagiria, o que faria, se ainda tivesse capacidade para pensar?

Todos passámos privações, no passado, ou pelo menos, nós, os das classes mais pobres, mas querer um pedaço de pão e não o ter, felizmente, não vivenciei essa situação.

Ouvia contar, na minha Aldeia, que os ciganos comiam os animais que eram enterrados por doença, para sobreviverem à miséria em que viviam.

Também, quase contado como “anedota”, embora sádica, diziam que, quando os filhos dos ciganos choravam com fome, o pai dizia à mãe:- dá-lhes água, porque eles choram com sede.

Tempos de miséria, que hoje, poucos recordam, entre nós. Em casa dos pobres não havia doçarias, nem os mimos que hoje há. Só no Natal, no Carnaval e na Páscoa, as coisas mudavam de feição. Muitas famílias conseguiam fazer as filhós e as azevias, no Natal, o arroz-doce, no Carnaval e os biscoitos de erva-doce, os bolos de manteiga e os folares, na Páscoa. As refeições do dia-a-dia eram baseadas em sopas de grão e feijão, nas quais se juntava uma farinheira ou um bocado de toucinho ou um pequeno chouriço, comidos como “conduto”, como hoje se come um “segundo prato de carne ou de peixe”. Só aos domingos se tinha um bocadinho de ensopado de borrego ou fricassé de galinha. O peixe, embora vindo de longe, ainda ajudava a colmatar outras faltas. As sopinhas de cação, as sardinhas assadas ou o carapau, eram do agrado de muita gente.

Quantas vezes, o conduto era apenas, um pedaço de pão com queijo. Comer uma cabidela de frango ou um bacalhau dourado, era já considerado um “luxo”.

Aproveitavam-se os ovos, das poucas galinhas que se criavam nos quintais, para fazer uma omelete com pedacinhos de chouriço.

Manteiga ou até margarina, não tinham entrada na nossa casa. Eram demasiado caras. Apenas o toucinho servia para untar as torradas, essas, sim, do melhor pão que havia no Alentejo.

Mas nada disto se pode comparar ao que, em pleno século XXI, ouvimos contar.

Para além do cenário catastrófico na Ucrânia, a guerra está a ter efeitos em cadeia, desastrosos em diferentes partes do mundo, devido ao papel da Ucrânia como principal fornecedor internacional de cereais. A Rússia e a Ucrânia produzem 30% da oferta mundial de trigo e exportam cerca de três quartos do óleo de sementes de girassol do mundo. Metade dos cereais que o Programa Alimentar Mundial (PAM) compra, para distribuição em todo o mundo, são cultivados na Ucrânia.

GirassolO continente africano é um dos mais afetados. Há uma guerra, a milhares de quilómetros de África, cujos efeitos se sentem neste continente, afetando os sistemas alimentares de produção e distribuição. O conflito ucraniano está a perturbar os mercados de bens alimentares. As consequências do conflito na Ucrânia ameaçam empurrar milhões de pessoas para mais perto da fome.

Uma realidade que parece não incomodar os países que fecham os olhos, indiferentes e insensíveis ao sofrimento alheio, só pensando em aumentar os seus lucros com a destruição que causam.

É muito triste sabermos que centenas de milhares de crianças vão para a cama com fome, todas as noites, enquanto os seus pais se preocupam, sem saber como alimentá-las.

Infelizmente, com o inverno agreste que se faz sentir em muitas regiões, onde a guerra continua a alastrar e a devastar a vida das populações, serão as crianças e os idosos, os mais prejudicados, porque, a par de todas as carências, até o aconchego lhes faltará, devido a cortes de energia, provocados pela maldade do invasor.

Sabemos que a terra produz o suficiente para todos os seus habitantes. O grande problema existe em que detém o poder de governar o mundo.

Como poderemos contribuir para que o mundo se humanize e a justiça seja igual para todos os seres?

Só uma força maior pode sustentar a capacidade de resistência da humanidade, tão maltratada.

O que se passa na Ucrânia, ninguém de bom senso, deseja viver. Quem julgará e condenará, tantos crimes contra a humanidade?