quadro alentejanas
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroA “conversa” de hoje decorre, como a da crónica anterior, de uma imagem. Isto é, a ilustração não foi procurada para o texto, mas o texto foi criado em função de uma pintura, tal como a anterior, alusiva à Lei. Do Museu José Malhoa, ambas.

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Trata-se de um óleo sobre madeira, de 1932, da autoria de Dórdio Gomes, e tem por título “Mulheres Alentejanas”. Para alguém que, como eu, nasceu no Alentejo e a ele se sente profunda e indelevelmente ligada, encontrar estas quatro mulheres alentejanas de 1932 nas Caldas da Rainha, não me deixa indiferente.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Fixando com atenção alguns pormenores, para além das três mulheres que se encontram sentadas e uma em segundo plano atrás, em pé, suaves elevações de montado e talvez searas, como cenário, o mais curioso de tudo é a árvore a que se se apoiam, talvez um sobreiro. Curiosamente, antropomórfico, em género masculina. Encontram-se, elas e a árvore, costas com costas, mas do tronco do suposto sobreiro eleva-se um ramo, como braço, a protegê-las. Outro “braço” apoia-se numa espécie de joelho.

As mulheres vestem-se como ceifeiras e existe nelas uma serena melancolia muito de acordo com a planície. Não parecem estar a descansar, nem a conviver, mas numa estranha espera, quase expectativa, sem perturbação. A parte das pernas que se encontra a descoberto mostra as meias grossas que usavam. Ou talvez não seja assim tão visível a espessura das meias, apenas para mim, que as vi na minha tia e nas minhas avós do Alentejo, apesar de não serem ceifeiras. Mas não havia espaço para o requinte das meias de seda ou de vidro. As meias eram de lã e a maioria das vezes manufacturadas em casa.

Voltando à árvore, tem esta algum eco em dois livros da minha vida. Os Lusíadas, no episódio do Cabo das Tormentas, ou do Mostrengo, na versão de Fernando Pessoa, petrificado no meio do mar por capricho divino, e muito mais próximo da fragilidade humana do que da rigidez do mito, e um livro da minha infância que ainda guardo, embora lhe faltem páginas. Aí se conta a história de um príncipe e sua corte, também por capricho do sobrenatural reduzidos à condição de árvores em floresta. O amor de uma mulher poderá libertar o príncipe, não me recordo se houve lugar a happy-end. Pelo contrário, encontra-se o Mostrengo naquele estado por causa do amor. Este sobreiro parece estabelecer uma ambivalente relação de protector e protegido com as mulheres. Se ele estende um braço que as defende, por outro lado, elas parecem cerrar fileiras resguardando-o de algum perigo que desconhecemos. Não sei que anti feitiço poderá libertá-lo da vegetabilidade, não sei, sequer, se o pretende, não sei. A presença destas mulheres, nas suas meias tecidas com linha grossa, é de uma beleza, sofisticação e encanto, que talvez justifique o permanecer no estado vegetal. Que segredo escondem as ceifeiras?

Mulheres Alentejanas, Dórdio Gomes