Sala Públia Hortênsia de Castro, Biblioteca de Elvas
Sala Públia Hortênsia de Castro, Biblioteca de Elvas
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroJá há algum tempo que esperava a oportunidade de visitar alguns espaços da Biblioteca de Elvas normalmente não abertos ao público, nomeadamente a soberba Sala Públia Hortência, admirável pelo espaço em si e pelas preciosidades que guarda, mas também os corredores de cortar a respiração que lhe dão acesso, repletos de obras raras e colecções de que foi sendo depositária. Foi como num sonho ou num templo que ali penetrei, e queria falar apenas em sussurro, para não interferir com os diálogos intermináveis que imagino entre os livros. Uma lareira e um piano surpreendem pelo inesperado, mas não interrompem a solenidade, emolduram-na com som e calor, ainda que o piano esteja em silêncio e a lareira apagada. Mas neste espaço de muitas memórias, os livros projectam palavras, o piano música e a lareira calor, assim construindo uma estranha, inusitada e multiforme sinfonia.

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Oficialmente, a Biblioteca nasceu em 1880, oito anos antes de Fernando Pessoa, como se tivesse sido alertada para a vinda de um grande homem da literatura. Contudo, o trabalho já se vinha fazendo há vinte anos. Também ela viria a ser grande, pelo espólio de respeito vindo de antigas bibliotecas conventuais, mas também particulares. Sendo uma Biblioteca Municipal, é considerada, pelo recheio e prestígio, uma das primeiras grandes bibliotecas do país. Não é apenas uma das maiores, mas também uma das melhores.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Um documento das Bibliotecas e Arquivos elaborado no tempo de Eurico Gama como bibliotecário (entre 1963 e 1969), regista um cálculo de 45.000 volumes, pelo que podemos imaginar, com a continuidade do trabalho elaborado ao longo destes anos, quer na recolha e aquisição, quer na catalogação, de quantos volumes não disporá já identificados. Estima-se, actualmente, à volta de 70000 volumes. É uma Biblioteca que merecia uma larga equipa técnica, sem a qual o trabalho, por muita dedicação e competência que haja, será sempre aquém, pelo magno volume em causa. E o valor é inestimável, para além de ser um espaço pedagógico por excelência, não apenas pela sua actual função, mas por ter sido acolhida num antigo Colégio de Jesuítas. O Largo em que se encontra é designado como Largo do Colégio, e quando a Biblioteca ali veio nascer (ou renascer?) funcionava, no primeiro andar, a escola primária.

É muito curiosa a existência desta eminente Biblioteca mesmo ao lado de Espanha. Sem querer especular excessivamente, mas ainda assim não resistindo à tentação de o fazer, é como se ela guardasse uma memória comum a preservar colectivamente, uma espécie de metáfora viva do que é a cultura: memória transfronteiriça de uma humanidade por vezes dividida, em que os livros e outros objectos e manifestações de cultura actuam como pontes. É curioso que para termos acesso a importantíssimos documentos e manuscritos da nossa memória precisemos de nos aproximar de Espanha, numa cidade onde as muralhas e fortificações talvez existam para nos lembrar o que vale a pena defender: uma Biblioteca viva no coração da cidade.

Biblioteca Municipal de Elvas

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.