Sefaradi 29
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroPierre Assouline é um escritor e jornalista francês nascido em Casablanca e descendente de judeus espanhóis que em 1492 foram forçados a deixar Espanha para não morrerem ou não terem de se converter a uma outra religião. Contudo, quando quinhentos anos depois o rei convida os sefarfitas espanhóis espalhados pelo mundo a regressarem, agradecendo-lhes multiplamente por não terem esquecido a cultura e terem preservado a língua, por não se terem deixado arrasar pelo ódio e por outras razões que agora não recordo, o judeo-hispano-afro-francês não resiste a aceder ao convite de Filipe. Inicia então uma longa peregrinação com vista a obter todas as condições impostas pelo aparelho, os descendentes dos reis católicos e da máquina Inquisitorial, algumas absurdas condições de quase impossível obtenção.

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A afirmação inicial é dele, numa das salas de espera onde é questionado acerca do seu desejo de se tornar espanhol. Contudo, e apesar da dúvida e hesitação que lhe vêm, quer dos obstáculos que se seguem ao convite, quer do profundo século XV dentro de si, é com determinação que envereda pelo caminho de regresso, caminho que começa no Consulado Geral de Espanha em Paris. A narrativa autobiográfica, para além de deliciosamente bem escrita, é apaixonante e repleta de pormenores de verosimilhança, creio que mesmo de realidade, que nos agarra.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Mas a ideia que eu queria trazer aqui era aquela com que iniciei a crónica. Suponho, a avaliar por aquilo que sinto, que este sentimento de se ser também, ao menos um pouco espanhol, seja partilhado por muitos raianos alentejanos ou não, embora eu, por nascimento, conheça melhor a raia alentejana. Já aqui falei disto, nomeadamente citando Agostinho da Silva, que tinha a convicção de ter nascido no Porto por engano, tendo estado destinado a nascer em Barca d’Alva, onde acabou por ir parar muito cedo devido à vida profissional do pai. No meu caso, não questiono o sítio onde nasci, pelo contrário, ainda menos me parece que aí tenha nascido por engano, mas tenho desde sempre o sentimento de que também poderia ter nascido do outro lado da fronteira, que estaria igualmente bem. Talvez por cedo ter começado a ouvir a língua em voz de avós, de vizinhos, da rádio, que transmitia estações espanholas mal se ligava.

Pierre Assouline
Pierre Assouline

Não permaneci muito tempo no Alentejo, mas sempre lá regressei, e o sentimento, ao chegar, não era apenas o de estar na minha terra, mas o de estar próxima de Espanha, um lugar misterioso e especial. Admito que os meus avós, tios e primos, que o meu pai e a minha mãe e as outras pessoas dali, habituadas a ir regularmente a Badajoz para tudo, para as compras, para o médico, ainda que não tendo sangue espanhol nas veias (e quem sabe se não?…) se sentissem ibéricos, hispânicos, pontes vivas entre o que parecia separado.

NumSepharadic Migrationa conhecida experiência amplamente descrita, os cientistas dividiram uma partícula em duas e separaram-nas por muitos quilómetros, isoladas em compartimentos estanques. Depois, na segunda parte da experiência, agindo sobre uma das partículas, a outra imediatamente reagiu. A experiência foi repetida, sempre com o mesmo resultado. Daí poder ser concluído que aquilo que uma vez esteve unido nunca mais volta a estar separado, ou que existe uma dimensão outra, não visível para nós, de que participam as duas partes da partícula, que não conhece tempo ou distância. Será isso que explica a sintonia entre gémeos, entre mães e filhos, entre pais e filhos. Por essa mesma razão os bebés, ainda que não ouvindo ou não entendendo o que é dito pelos pais, podem reagir a pensamentos, intenções, atitudes e emoções de modo quase evidente, contra todas as expectativas e convicções. Por vezes até adoecendo. Ainda que não seja possível evitar, há que estarmos muito conscientes do que fazemos, dizemos ou sentimos. A maioria das vezes basta isso: estar consciente.

Passaporte

Quanto a nós portugueses e espanhóis, talvez seja isso que nos une: o facto de já termos estado unidos. Para além do sangue, do espaço e do tempo.

Daí, Filipe, o rei, ter querido reunir à pátria as partes expulsas. «Comme vous nous avez manqué!», disse ele. A falta que vocês nos fizeram! Seguiu-se o que não surpreende. A burocracia, resquícios da antiga Inquisição! Procurando interromper ou dificultar o que fora um gesto sincero e genuíno. Pelo menos, é esse o sentimento de Pierre Assouline em relação ao “seu” rei. O próprio Edgar Morin teve dificuldade em atravessar o muro de obstáculos tendo tido de se conformar com permanecer apenas francês. Pela minha parte, não preciso de papéis oficiais nem de análises de ADN que autentiquem o meu pan-iberismo. Basta-me senti-lo. E não há Inquisição nova ou velha que me demova.